quarta-feira, 5 de agosto de 2020

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ENTREVISTA: Pastor fala sobre os quinhentos anos da Reforma Protestante

Questões sobre união e respeito entre as diferentes denominações religiosas foram respondidas pelo pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil em Guarapuava, Walduino Paulo Littig Junior.

31/10/2017 10:02:00


Enquanto seres humanos, somos movidos pela história, pelos fatos. Eventos; sejam eles grandes ou pequenos, causam impacto entre as pessoas, as comunidades, os países. Em muitos casos, os eventos mudam completamente a maneira de se pensar e a perspectiva com que vemos e sentimos o mundo à nossa volta.

Há quase cinco séculos, um desses acontecimentos motivou novos olhares ao cristianismo, mudou conceitos e fez com que a humanidade repensasse seus atos e o caminho pelo qual vinham seguindo até então. O promotor de tal mudança foi Martim Lutero, que era padre e estava muito descontente com alguns pontos de doutrinas da Igreja Católica Romana. Ele propôs uma reforma no catolicismo. Na ocasião, o padre recebeu o apoio de vários religiosos e governantes europeus, mas também viu pela frente muita gente contrária às suas ideias reformistas.

Mesmo ante as divergências, nascia, portanto, a Reforma Protestante promovida por Lutero, no dia 31 de outubro de 1517, quando este publicou suas noventa e cinco teses a respeito do que defendia como mudança dentro da Igreja.

As atitudes do religioso provocaram uma acalorada revolução na religião, iniciada na Alemanha, estendendo-se pela Suíça, França, Países Baixos, Reino Unido, Escandinávia e algumas partes do Leste europeu, principalmente os Países Bálticos e a Hungria. A resposta da Igreja Católica Romana foi o movimento conhecido como Contrarreforma ou Reforma Católica, iniciada no Concílio de Trento (1542 - 1545).

O resultado da Reforma Protestante foi a divisão da chamada Igreja do Ocidente entre os católicos romanos e os reformados ou protestantes, originando o protestantismo.

Lutero publicou cerca de quatrocentas obras durante sua vida. O monge morreu de derrame cerebral no dia 18 de fevereiro de 1546. Seu corpo foi sepultado na igreja do Castelo de Wittenberg onde, trinta e cinco anos antes, ele havia afixado suas noventa e cinco teses.

O tempo passou e muita coisa mudou no mundo, desde então. Várias tentativas de aproximação da Igreja Católica com a Igreja Protestante foram realizadas, mas a maioria, sem muito sucesso.

A partir do Concílio Vaticano II, iniciado em dezembro de 1961, a discussão sobre a reaproximação das duas doutrinas voltou a ser discutida, agora com muito mais abertura. Desde então, muitas foram as ações que passaram a ser executadas em conjunto entre as duas Igrejas e os laços de irmandade também foram estreitados, promovendo assim, uma união que, em anos anteriores, se julgava impossível.

Novos avanços ocorreram nos papados de João Paulo II e Bento XVI. Com a chegada do Papa Francisco ao Vaticano, a proposta de unir as doutrinas cristãs foi vista pelo pontífice como fator primordial para a humanidade.

Buscando uma “Igreja em Saída”, Papa Francisco encontrou no diálogo a melhor das formas para unir as pessoas em todo o mundo, sempre tendo Jesus Cristo como foco principal e seus ensinamentos como metas a serem buscadas e alcançadas.

No último dia 31 de outubro, uma celebração ecumênica na Catedral de Lund, na Suécia, com a participação do Papa, foi considerado um momento histórico para o cristianismo. O encontro foi em celebração aos quinhentos anos da Reforma Protestante, com a participação de dirigentes políticos e líderes católicos e luteranos. Na ocasião, o Papa manifestou seu pedido de perdão pelos erros do passado e pelas divisões. Ele também grifou que há o propósito de caminhar juntos e trabalhar pelo bem da humanidade.

Em entrevista, por ocasião das comemorações dos quinhentos anos da Reforma Protestante, a reportagem do Centro Diocesano de Comunicação (CDC) foi conversar com o pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil em Guarapuava, Walduino Paulo Littig Junior.

Pastor Walduino tem 35 anos, nasceu na cidade de Nova Venécia, Espírito Santo, é casado com Sandra R. Zorzanelli Littig e foi ordenado pastor há dez anos. Já desenvolveu seus serviços nas cidades de Canoas, Rio Grande do Sul, na Congregação Cristo, bairro Niterói e, em Guarapuava, na Congregação São Paulo, onde trabalha há cinco anos.

O religioso é formado pelo Seminário Concórdia de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul e pela Universidade Luterana do Brasil (ULBRA) de Canoas, no mesmo Estado. Atualmente, cursa Mestrado em Teologia Prática no mesmo Seminário.

Pastor Walduino foi receptivo para com a reportagem do CDC e respondeu às perguntas que lhe foram feitas:

 

CDC –– A Reforma Protestante completa quinhentos anos em 2017. A separação foi resultado de um conflito dentro da Igreja Católica. Em seu modo de entender, este conflito mudou a forma de pensar da humanidade? Como?

Pr. Walduino –– De certa forma, podemos dizer que a Reforma também gerou um impacto considerável na humanidade. Além de uma grande explanação sobre a vida cristã, Lutero também trabalhou muito sobre outras questões pertinentes do seu tempo. Como, por exemplo, na área da educação. Onde propôs uma reformulação do ensino, levando a também moldar a educação moderna. Isto, nós vemos em dois títulos que ele escreveu: Manifesto pela criação e manutenção de escolas cristãs (1524) e publicou também – Lugar de criança é na escola (1530). Estas duas obras reforçam a necessidade para que todas as pessoas tivessem acesso à educação. A partir desse momento começaram a ser criadas escolas em todos os lugares. Além da área educacional, Lutero escreveu sobre política, economia e ética. Ao falar de política ele defendeu que deveria haver uma distinção entre Estado e Igreja, o que levou a uma nova visão de se governar, sem uma clara intervenção da Igreja, como acontecia no seu tempo. Sobre economia, escreveu uma obra com o título Comércio e Usura (1520), diante da intensificação do comércio que levou muitas pessoas a terem um grande acúmulo de capital. Alguns especialistas em história da ciência da economia atribuem a Lutero uma contribuição significativa para este campo do conhecimento. Se pensarmos nestas obras, com certeza veremos que a humanidade sofreu certa influência da Reforma Protestante, que levou a moldar a sociedade em que vivemos hoje.

 

CDC –– A intenção de Matinho Lutero, em princípio, não era criar uma nova Igreja, mas sim, corrigir o que ele considerava errado dentro da Igreja Católica. Se observado hoje, depois do surgimento da Igreja Luterana, pode se considerar que os pensamentos dele se concretizaram?

Pr. Walduino –– A igreja Católica sofreu grande influência da Reforma Protestante. Muitas mudanças, que vemos hoje, foram em decorrência da Reforma. Mas, nem tudo mudou de acordo com as propostas defendidas por Martinho Lutero. Ainda há uma grande diferença doutrinária entre as igrejas Luterana e Católica, mas isso não impede de vivermos em respeito e amor mútuo. Lutero nunca teve o desejo de formar uma nova igreja e muito menos que seus seguidores se chamassem luteranos. Mas, diante da pressão do imperador e da igreja de seu tempo, os que seguiam Lutero foram chamados de luteranos, o que perdura até hoje. Lutero escreveu assim, no prefácio da primeira edição alemã de suas obras: “Antes de tudo, peço que não mencionem o meu nome e nem se chamem de luteranos, mas de cristãos. Quem é Lutero? A doutrina não é minha. Também não fui crucificado por ninguém. Em 1 Coríntios 1 São Paulo não tolerou que se chamasse os cristãos de paulinos ou petrinos, mas (deveriam chamar-se apenas) cristãos [...] Não seja assim, caros amigos, apaguemos todos os nomes partidários e sejamos (apenas) de Cristo, cujos ensinamentos temos. …os cristãos não creem em Lutero, mas no próprio Cristo; (assim) abram mão de Lutero; apegue-se à palavra. [...] Não sou, nem quero ser o mestre de ninguém. Somente Cristo é nosso mestre”.

 

CDC –– Sabemos que é grande o surgimento de novas igrejas, com muitas denominações. Como o senhor analisa esta situação? As grandes quantidades de igrejas não prejudicam o entendimento e a fé das pessoas?

Pr. Walduino –– Infelizmente, uma das consequências da Reforma foi o surgimento de muitas igrejas e seitas. Todos procuram ter a verdade e acabam buscando uma forma diferente de interpretar a Sagrada Escritura. Hoje, vemos igrejas que tentam apenas servir às pessoas, atendendo a seus desejos. Muitas igrejas viraram comércios e se afastaram, quase que por completo, da Palavra de Deus. Um dos fundamentos da Reforma é justamente que a Sagrada Escritura é a única fonte de ensino da igreja cristã. Pois, buscar outros caminhos incorre no erro de buscar apenas as próprias necessidades ou desejos. Tendo a Palavra como única fonte de norma e doutrina e também única fonte do pleno conhecimento de Deus e de sua vontade, eliminamos nossos desejos e nos submetemos aos desejos de Deus para conosco. Se todos se curvassem à Palavra de Deus não haveria tantas igrejas que confundem o cristão. Pois o cristão acaba buscando o que mais lhe agrada e não o que realmente prega a Cristo e a Salvação Eterna.

 

CDC –– Em se tratando desta aproximação com o Vaticano, o senhor considera salutar a questão? A unidade é a saída para os seres humanos?

Pr. Walduino –– O Papa Francisco trouxe uma nova forma de agir da Igreja Católica em relação aos Evangélicos. Isto é bom no âmbito de um maior respeito e compreensão de ambas as partes. Mas, dificilmente haverá uma unidade da igreja cristã, pois ainda há grandes diferenças doutrinárias. Vejo que a melhor forma seria o reconhecimento que a fé em Cristo Jesus é o caminho para a Salvação, não importando as denominações. Pois, a Igreja Cristã está onde a Salvação em Cristo é pregada. Esta igreja não tem paredes, ela é formada por pessoas que têm esta fé. Como Paulo diz em Ef 2.8: “Porque pela graça, sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus”. Se tivermos esta compreensão, saberemos respeitar uns aos outros e viver em paz e alegria.

 

CDC –– Pastor Júnior, muito se fala em ecumenismo atualmente. Para o senhor, o ecumenismo é possível no mundo? É uma saída para a humanidade?

Pr. Walduino –– Não vejo o ecumenismo da forma como é proposta hoje, uma saída para a humanidade. Mas vejo o respeito e o amor para com o próximo, como a melhor forma para uma melhor sociedade. Sempre haverá diferenças e a história mostra que simplesmente unir pessoas que pensam de maneiras diferentes sobre o ser igreja e a fé, não auxilia para uma mudança eficaz na sociedade. Muitos países ao longo da história tentaram isso e falharam. A melhor forma é saber respeitar e viver os princípios cristãos estabelecidos por Deus. Se todos nós cristãos vivermos como Cristo nos ensinou, teremos uma sociedade maravilhosa e próspera.

 

CDC –– Como o Vaticano, sobretudo, o Papa Francisco é visto pela Comunidade Luterana? Há alguma diferença na maneira de tratar com ele, se comparado a outros Papas?

Pr. Walduino –– O Papa Francisco é visto como um acolhedor e apaziguador. Mas, a Igreja Evangélica Luterana do Brasil, sempre tratou com profundo respeito os Papas ao longo da história. Não temos uma diferença de trato com o Papa Francisco.

 

CDC –– Na Igreja Católica busca-se, através das convicções do Papa Francisco, ir ao encontro dos que mais precisam, sem olhar para sua religião, condição social ou modo de viver? Na Igreja Luterana, qual é a principal preocupação hoje em se tratando de sociedade?

Pr. Walduino –– Nós também buscamos auxiliar o necessitado não olhando para a sua religião. Auxiliamos muitas pessoas de várias denominações religiosas com roupas e alimentos. Nossa preocupação é apenas ajudar, seguindo o que Cristo nos ensinou: “Amar o próximo como a ti mesmo”. Em relação ao modo de viver, condenamos o pecado, mas amamos o pecador, como Cristo nos ensina. A grande preocupação hoje da Igreja Luterana é a defesa e a manutenção da família estabelecida por Deus. Buscamos auxiliar as famílias a superarem suas dificuldades para manterem-se unidas em torno da Palavra de Deus. Esta é uma batalha árdua, que com certeza a Igreja Católica também compartilha.

 

CDC –– O senhor considera possível uma aproximação entre as igrejas cristãs com outras religiões/denominações não cristãs, como por exemplo, as religiões árabes?

Pr. Walduino –– Na esfera social, eu considero um grande desafio, pois devemos zelar por uma sociedade melhor e mais organizada, que dê condições de vida digna a todas as pessoas. Na relação do campo espiritual, não enxergo como possível, são caminhos totalmente diferentes. Mas, isto não deve impedir de forma alguma, o respeito mútuo, que ainda enxergo como grande desafio a ser buscado.

 

CDC –– Se falarmos de ecumenismo em Guarapuava, em seu modo de entender, há muito que ser feito?

Pr. Walduino –– Se pensarmos em uma visão ecumênica, onde buscamos agir em parceria para o bem da sociedade, penso que estamos para um bom caminho, mas há muito ainda a percorrer para ter uma parceria mais eficaz.

 

CDC –– Com o final do ano se aproximando, qual a mensagem que o senhor deixaria, enquanto líder religioso, para as pessoas deste país, deste estado e, sobretudo desta cidade?

Pr. Walduino –– Como pastor e cristão, eu oro a Deus para que a Sua Palavra possa estar em cada lar sendo estudada por todas as famílias. Que nossa linda cidade, possa sempre estar fundamentada em Cristo, em uma fé viva e atuante para o bem de todo ser humano. Que possamos amar e respeitar uns aos outros, para que assim, levemos ao necessitado e ao desamparado o amor que vem de Deus. Que sejamos uma luz em meio às trevas, para levar as pessoas ao caminho da salvação em Cristo Jesus. Um feliz ano novo e uma vida cristã cheia de bênçãos de Deus!

 

CDC –– Uma última pergunta: sobre a estátua de Lutero que foi instalada em Guarapuava. De quem foi a iniciativa? Monumentos não vão contra as ideias do fundador da Comunidade Luterana? Como os membros da igreja receberam esta notícia?

Pr. Walduino –– A iniciativa para a construção de monumento partiu de nossa congregação para as comemorações dos 500 anos da Reforma Protestante. Toda a igreja está muito feliz e participante nas doações para finalização da obra. Pois toda ela foi custeada pela nossa Igreja, sem participação da prefeitura, que apenas cedeu o espaço. O monumento não vai contra os princípios da igreja Luterana, pois ele é apenas um símbolo para nós. Nós não veneramos e nem consideramos Lutero um santo, apenas um instrumento que Deus usou em uma hora de grande necessidade da igreja. Para nós, este monumento é apenas um símbolo do resgate da salvação pela Graça de Deus. Sob a estátua foi feita uma Rosa de Lutero, que resume seus ensinamentos: a Cruz, no centro, lembra que Deus vem ao nosso encontro com o seu amor através de Jesus crucificado; o Coração significa que Cristo agiu na nossa vida através da cruz e que ela recebe novo sentido, se Cristo for o seu centro; a Rosa significa que, quando a cruz de Cristo tem lugar em nossa vida, ocorre uma transformação que traz verdadeira paz e alegria. A cor branca representa o reino de Deus; o Fundo Azul significa que Deus está conosco. Podemos viver com e para Deus, como sinais de Seu reino já aqui e agora. Mas a cor azul é também esperança no futuro, pois lembra a eternidade; o Anel Dourado representa as dádivas que recebemos através da cruz e ressureição de Jesus. A vida para a fé e o amor, a serviço de Cristo, é o que temos de mais precioso.

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