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FRADES MENORES MISSIONÁRIOS: “Paz e Bem” em favor da vida

Há 26 anos, a diocese de Guarapuava conta com a presença dos Frades Menores Missionários. Os jovens são a maioria dos que procuram o Convento São José em busca de oração e orientação espiritual, segundo contou frei Levi Jones Botke.

26/07/2017 17:38:00


O vento gelado de meados do mês de julho numa manhã de céu limpo aguça ainda mais a beleza do lugar. Quando se passa pelo portão, a impressão que se tem é a de que todas as atribulações cotidianas ficaram para trás. A vista do vale e das montanhas, mais além, impressiona. A beleza parece dançar aos olhos do visitante. Mais alguns metros por um caminho pavimentado com paver sobre o gramado bem-cuidado, rodeado pela natureza pujante e o visitante avista a saudação, logo acima da porta de entrada que diz: “O Senhor te dê a paz!”. A palavra “Paz” é algo corriqueiro no lugar. Há diversas inscrições em madeira e pintadas nas pedras, falando muito de “Paz e Bem”, uma das mais bonitas formas de se saudar ao receber uma pessoa. Já na antessala, o canto gregoriano ecoa pelo ambiente remetendo à tranquilidade, à reflexão, ao encontro com Deus. Pessoas em silêncio (algumas das quais que participaram da missa celebrada às 06h45), aguardam para ser atendidas e rezam entregando-se à serenidade embalada pela música que permite a todos viajar e elevar-se. Na simplicidade dos móveis e das paredes de tijolos à vista, a mais pura essência do desprendimento, da doação total em favor da vida e do amor a Deus com bases nos ensinamentos de Jesus Cristo e de São Francisco de Assim.

Pela descrição, o leitor deve se perguntar: de qual local se trata? Isto é fruto da imaginação poética de alguém? Coisas de sonhos? Não. A descrição acima é do Convento São José, dos Frades Menores Missionários (FMM). O local está situado à Rua Frei Thiago Luchese, número 20, no bairro Santana, em Guarapuava.

Quem recebeu a equipe do Centro Diocesano de Comunicação (CDC) para uma conversa, foi frei Levi Jones Botke, guardião do Convento. Ele mora juntamente com mais três frades e um rapaz que estuda para entrar na congregação e está na fase de postulantado, como conta frei Levi durante a entrevista.

HISTÓRIA DO CONVENTO

O decreto para que o Convento fosse construído, foi emitido no dia 19 de março de 1991, dia de São José, pelo bispo diocesano à época, Dom Albano Bortoletto Cavalin (falecido no dia 01 de fevereiro de 2017, em Londrina, onde era arcebispo emérito). Segundo o “Decreto de Ereção”, a casa religiosa seria construída em um terreno cedido pela diocese de Guarapuava à Congregação dos Frades Menores Missionários (FMM). Na ocasião, o documento de cessão do terreno foi entregue ao superior da congregação, com sede na cidade de Ponta Grossa, frei Alderico Machado Noleto.

“Nossa congregação está presente em Guarapuava há 26 anos. Todo o processo de construção, bem como de ereção deste convento, estão descritos nos documentos da casa, como livro tombo e decreto emitido pelo bispo. Foi Dom Albano quem pediu a presença dos Frades Menores Missionários para Guarapuava. Quando ele nos convidou para virmos para cá, ele buscava um trabalho como o que estamos fazendo aqui, de atendimento, de oração e de atenção às pessoas. Ele não queria que nós tivéssemos paróquias, nem que assumíssemos serviços fora do convento. A diocese de Guarapuava buscava uma presença religiosa de atendimento pastoral. Foi com esta proposta que viemos, há 26 anos”, relembrou frei Levi.

Alegre e descontraído, frei Levi comparou o trabalho dos Frades Menores Missionários com os serviços de um clínico geral que tem o dever de atender a todos, sem especificação prévia de sua enfermidade. “Somos como um clínico geral. Recebemos aqui, as mais diversas pessoas, passando pelas muitas situações de conflitos, inquietações de dores que possam existir. No entanto, nos concentramos no atendimento à juventude e casais, com trabalhos voltados à espiritualidade”, observou o religioso.

Durante a entrevista, frei Levi explicou que a congregação é composta por padres (que são chamados de frades) e por irmãos ordenados. Desta forma, para que todos fossem tratados com igualdade, instituiu-se o prenome frei, para que não houvesse alusão alguma à superioridade. “A palavra ‘frei’ engloba a todos nós. Do contrário, poderia surgir privilégios ou alusão à superioridade e isto não existe aqui na congregação. Somos todos iguais, com os mesmos direitos e deveres”, detalhou frei Levi.

PROCURA POR ATENDIMENTO

Os jovens são a maioria dos que procuram o Convento São José em busca de oração e orientação espiritual, segundo frei Levi. Ele falou do afastamento dos jovens da espiritualidade e das atividades da Igreja em dias atuais, mas também ressaltou que, embora pequeno, o número de pessoas que buscam orientação vem crescendo. “Sou muito esperançoso e digo que o número de jovens que buscam a Igreja, é expressivo, mas se comparado ao número de pessoas nesta faixa etária, eu digo que o número é mínimo. A grande massa da juventude não vem aqui. Mas há esta porcentagem significativa da qual falei, que se aproxima com necessidades de conforto e de oração. Em muitos momentos, não há como distinguir se estas pessoas estão confessando seus pecados ou tendo uma conversa conosco. Atendemos a todos com muito amor e isto, para nós é muito gratificante, eu digo que é vital para nosso trabalho”, sublinhou.

Perguntado sobre a aceitação da congregação quando esta chega a uma cidade, frei Levi contou que há sempre algum tipo de choque, pois a presença de pessoas diferentes, com outra maneira de viver, provoca certo desconforto no lugar, o que é natural. Ele também grifou que aos poucos, com o tempo, tudo se ajeita e a convivência se torna cada vez mais harmoniosa, pacífica, com alicerces calcados no Evangelho. “No começo há sempre alguma relutância quanto à aceitação dos trabalhos. Aqui em Guarapuava, o bispo ajudou muito no sentido de movimentar, de falar com a população. Recebemos muita ajuda também para a construção de tudo aqui, porque nós não temos um fundo, uma renda. Nosso sustento vem exclusivamente da generosidade do povo. Aqui, no começo, teve muita pobreza, mas nunca nos faltou o essencial, o básico”, lembra o frade.

Frei Levi está há dois anos em Guarapuava como guardião do Convento São José. No entanto, quando ainda estava no postulantado, ele disse que trabalhou na construção da casa exercendo as funções de ajudante de pedreiro e de pedreiro. “Estou aqui há dois anos, mas conheço e conversei com todos os frades que passaram pela casa ao longo destes 26 anos. Eu fui pedreiro na construção deste local. À época, eu estava no convento em Ponta Grossa e vim aqui para ajudar nas obras. Foi uma experiência única e essencial em minha vida”, rememorou.

Nos primeiros anos da congregação em Guarapuava, os freis trabalharam e administraram a paróquia Bom Jesus, no Bairro Pérola do Oeste. Depois, os padres diocesanos assumiram os trabalhos naquela comunidade e os freis se dedicaram às atividades propostas desde o início, que são os atendimentos. “Sempre destacamos, que nosso trabalho é essencialmente gratuito. Jamais cobramos um centavo sequer por qualquer atendimento que seja. Essa gratuidade torna nosso serviço mais profundo, com base no Evangelho. Jesus bem disse ‘dai de graça aquilo que recebeste de graça’. E recebemos muito de graça, todos os dias. Em resumo, quem nos sustenta materialmente é o povo de Deus. Sem a generosidade das pessoas, não sobreviveríamos. Somos proibidos pelas nossas constituições, de estabelecermos valores pelo nosso trabalho. Se houver motivação, a pessoa dá o que for da sua vontade”, reforça.

VOCAÇÕES

Ante as dificuldades e diminuição de vocacionados porque passam muitas congregações religiosas e dioceses no mundo inteiro, frei Levi disse que com os Frades Menores Missionários não é diferente. Segundo ele, há carência de religiosos devido ao número de pessoas que precisam de atendimentos. No entanto, ele destaca que há sempre procura por parte de adolescentes e jovens que desejam ao menos conhecer como funcionam os trabalhos e como é a vivência em um convento. As primeiras buscas e pesquisas sobre a maneira de viver dos freis são feitas através da internet, principalmente, através das redes sociais, segundo relata frei Levi. “Uma grande porcentagem de interessados em nossa congregação, chegam via internet. E-mails, Facebook, sites e blogs são as maneiras mais utilizadas para conhecer os trabalhos e demonstrar interesse em ingressar nos conventos. Nos últimos cinco ou seis anos, tivemos uma grande queda vocacional. Isso foi no sentido de que alguns saíram e poucos entraram. As vocações são despertadas a partir deste primeiro contato”, explicou.

Quanto aos motivos que levam os jovens a desistir da vida vocacionada, frei Levi detalhou que estes são muitos e variam de pessoa para pessoa. “Alguns jovens vendo fotos dos conventos na internet acabam por criar uma imagem romântica da situação, mas quando chegam aqui, percebem que a realidade é muito diferente. Viver em comunidade requer perseverança, adaptação e muita vontade. Aqui, por exemplo, cada um tem que lavar sua roupa, lavar louça, cozinhar, cortar grama, rachar lenha, cuidar dos animais e da horta. Temos também os desafios dos horários. São responsabilidades próprias de uma casa. Estes fatores, muitas vezes, acabam por pesar na decisão de um jovem seguir em frente nesta vida vocacionada. Esta visão poética do franciscano, do convento, do mosteiro, não sustenta vocação de ninguém”, detalhou.

Quando um adolescente ingressa na Congregação dos Frades Menores Missionários no Paraná, os estudos começam no Convento de Toledo, no Oeste do Estado. Em Guarapuava é o segundo lugar em que o estudante passa a morar e dar continuidade aos estudos. Para quem começa os estudos depois de adulto, o Convento São José, em Guarapuava, é, no entanto, o primeiro lugar para se cursar o postulantado.

O número de adultos com formação superior que ingressam nas congregações religiosas tem aumentado segundo dados estatísticos. Para frei Levi, que começou seus estudos com 14 anos de idade, este tipo de decisão exige força de vontade e total desprendimento. “Muitos adultos com formação superior sentem a vocação e decidem seguir por este caminho. É uma decisão muito difícil, mas ao mesmo tempo, significa uma grande alegria para todos. Quando comecei, eu não sentia nada, não sabia de nada, pois tinha apenas 14 anos. Hoje, sempre que sou aprovado pelo meu superior, eu compreendo que estou no caminho certo. Mas vocação é algo que deve ser renovado todos os dias e exige muita dedicação”, disse frei Levi.

Cada frade tem um pequeno quarto que É chamado de cela. Há horários pré-estabelecidos para orações, refeições, estudos e meditação. O silêncio também faz parte da rotina dos Frades Menores Missionários.

EREMITÉRIO

O Santuário do Monte Alverne (Santuario della Verna) é um local de peregrinação católica, pertencente à Ordem Franciscana, localizado no Monte Alverne, a pouca distância de Chiusi della Verna, na província de Arezzo, na Itália.

O Santuário foi erguido no sítio onde segundo a tradição, São Francisco de Assis recebeu os estigmas, em 17 de setembro de 1224. Está situado no flanco norte do Monte Alverne (ou Monte Penna, como é conhecido em italiano), a 1128 metros de altitude, e compreende um complexo de capelas, ermidas, hospedaria, convento e uma basílica, sendo de grande importância para a devoção católica e um dos mais importantes centros franciscano do mundo.

A origem do santuário remonta a 1213, quando São Francisco encontrou um homem de família nobre que vivia naquele local, chamado Orlando di Chiusi della Verna, que ofereceu o monte e a área adjacente para o santo criar um espaço de retiro e oração. A oferta foi aceita e ali, Francisco voltou diversas vezes, tornando-se um dos seus locais prediletos para meditação. No lugar, rapidamente foram construídas algumas capelas e uma igrejinha dedicada a Nossa Senhora dos Anjos, em 1218. Algum tempo depois do milagre dos estigmas, o Papa Alexandre IV tomou o local sob sua proteção (1260), ampliou a igreja de Santa Maria dos Anjos, e a consagrou em presença de São Boaventura e numeroso clero. Poucos anos depois, o Conde Simone di Battifolle ergueu nas proximidades a Capela dos Estigmas.

Em 1348 o Conde Tarlato di Pietramala mandou erguer o templo principal, a basílica dedicada à Madonna Assunta, que só foi completada em 1509 com o auxílio da guilda L'Arte della Lana, de Florença. O prédio é todo em estilo românico-renascentista, e no interior, em forma de cruz latina, existem diversos altares decorados com algumas das mais importantes obras de Andrea della Robbia. Na Capela das Relíquias são preservados objetos pessoais do grande santo, como seu cajado, seu flagelo, sua taça, e um fragmento de tecido impregnado com o sangue do estigma de seu flanco.

A igreja conta ainda com um grande órgão e um arquivo com obras raras, como manuscritos iluminados e missais antigos.

MORRO DOS FREIS

Em Guarapuava, há aproximadamente dez anos, frei Ricardo Gomes da Silva, da Congregação dos Frades Menores Missionários, deu início a uma obra aos moldes do eremitério franciscano na Itália. Uma família da cidade cedeu o terreno que fica a cerca de dez quilômetros da cidade, entre as localidades de Guabiroba e Vale do Jordão. A região pode ser vista do Convento São José e todas as semanas recebe a visita de dezenas de pessoas que chegam ao local a pé, de motocicletas e de jipe. Frei Ricardo é o responsável pelos trabalhos de construção e manutenção daquele espaço religioso que é chamado de Monte Alverne e popularmente conhecido como Morro dos Freis. Durante todo o mês de setembro, o religioso permanece no local em retiro espiritual, relembrando a história de São Francisco de Assis, quando foi estigmatizado. Há missas, orações e reflexões e o número de visitantes, sobretudo de jovens, aumenta todos os anos, conforme contam os religiosos.

FRADES MENORES MISSIONÁRIOS

Animados pela causa missionária, os freis da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos (OFMCap) do Rio Grande do Sul, decidiram em meados da década de 1970, iniciar uma nova fraternidade missionária com o objetivo do retorno às fontes cristãs e franciscanas. A congregação é um ramo de inspiração divina dentro da família franciscana que nutre sincero e firme desejo de entender e observar de maneira perfeita, integral e simples o evangelho, fazendo de Jesus, o centro da vida, através da observância fiel da regra de São Francisco de Assis, como resposta ao chamado de retorno às fontes, proposta do Concílio Vaticano II, entendendo a fidelidade à regra como esforço generoso para manter e recuperar os valores franciscanos. O objetivo é também manter-se em contínua e progressiva renovação.

São chamados de frades por viverem como irmãos, numa vida de oração, trabalhos comunitários e pastorais. São denominados menores porque buscam sempre a vivência simples e pobre, conforme o ideal deixado por São Francisco em obediência à Igreja. São definidos como missionários, por terem disponibilidade em servir dentro e fora das fraternidades, espelhando o amor de Deus, do jeito de São Francisco. No decreto de aprovação das constituições Dom Geraldo M. Pellanda expressou: “ciente de vosso sincero esforço de retornar às fontes franciscanas, vemos nas presentes Constituições, normas seguras para a conquista do ideal que vos propusestes”. (Ponta Grossa 15 de agosto de 1980). Os Padres Missionários de São Francisco como eram chamados, com a aprovação das constituições, receberam nome novo e definitivo: Frades Menores Missionários (FMM).

Fixaram residência em Toledo, Paraná, em 1973, com ajuda da comunidade local e começaram as atividades pastorais e missionárias no território da paróquia Menino Deus.

Desde então, a obra cresceu. Seminários foram construídos e, atualmente, os Frades Menores Missionários então presentes nos Estados do Paraná, Mato Grosso e Pará.

 

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