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A barrinha de grilo é o futuro da barrinha de cereais no Brasil

Na onda da nova tendência alimentar, startups e laboratórios nacionais se preparam para servir insetos nutritivos em nossos desjejuns.

11/08/2017 15:20:00


Dizer que o ambiente está à beira do colapso é repetir o óbvio. Nossa fome insaciável por frango, porco, ovos e outros produtos alimentícios animais está ajudando a detonar o clima, as florestas e a camada de ozônio. Um relatório do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) estimou que, no Brasil, cada R$ 1 milhão gerado pela pecuária gera também R$ 22 milhões em impactos ambientais, com destaque para gases causadores do efeito estufa e desmatamento. A criação de gado degrada o solo, a água e os biomas locais. Se vacilarmos, vamos destruir o ambiente em nome de uma dieta dependente de proteína animal. A solução está naquilo que outrora pousava em nossas sopas: as moscas.

Para a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO, na sigla original), devemos nos preparar para dietas ricas em insetos. De acordo com um relatório da instituição, “insetos podem converter dois quilos de alimento em um quilo de massa corporal; em comparação, bovinos necessitam de oito quilos de alimento para produzir um quilo de ganho de peso”. Outra vantagem no consumo dessas criaturas é que podem emitir de dez a cem vezes menos gases do efeito estufa que a pecuária tradicional. A alimentação dos insetos pode consistir de dejetos humanos e animais, diminuindo a necessidade da produção de rações, cultivo que é responsável por outros males ambientais, como a monocultura.

Embora insetos já façam parte dos hábitos alimentares de dois bilhões de pessoas, a FAO quer incentivar o resto do mundo a colocar esses artrópodes no prato. Além de questões culturais, a organização afirma que é preciso que haja “aumento da inovação na mecanização, automação, processamento e logística para reduzir os custos de produção a um nível comparado a outras fontes de alimento”.

O mercado já está se preparando. Nos EUA, Canadá e Europa, pequenas empresas e startups já começaram a surgir, dedicadas a criar e comercializar insetos como fonte de alimentação. A consultoria Arcluster estima que o mercado global de insetos para alimentação deverá ser de US$ 1,53 bilhão até 2021. No Brasil, a startup Hakkuna está pronta para começar a produzir barras de cereal feitas de grilo. Criada por Luiz Filipe Carvalho, engenheiro de materiais de formação, a empresa tem também o zoologista Gilberto Schickler como sócio. Atleta amador, ele começou a se interessar pela entomofagia durante o mestrado. “A bolsa não pagava muito bem e eu não queria comprar whey protein, que é muito caro”, conta. Aluno de Schickler em cursos de criação de insetos, Gilberto começou a fazer experimentações. “Peguei uma quantidade de grilo, desidratei e fiz um protótipo de uma granola com farinha de grilo. Ficou super gostoso e pensei que poderia dar certo”, conta.

A Hakkuna pretende comercializar as barras de proteína em ou ano ou menos. Atualmente, estão em busca de um investidor para estruturar o negócio e começar a produção numa escala razoável. Os sócios apostam na qualidade do produto. “Os insetos têm a mesma composição nutricional da maioria das carnes”, explica Schickler. “Eles têm um ‘pool’ de aminoácidos que compreende todos os que o organismo necessita. Assim como as carnes, eles são uma fonte bem completa de nutrientes. Têm gorduras ômega 3, ômega 6, que são benéficas. É um alimento que promove saúde quando consumido de forma adequada. A gente abate o grilo, desidrata e faz um farinha com ele”, diz Carvalho. “Cem por cento do inseto vira essa farinha, que tem sessenta e nove por cento de proteína. Isso é interessante para atletas e quem busca proteína de qualidade; ela tem absorção boa”, grifa.

Mas isso não quer dizer que esses animais vão substituir seu churrasco ou seu bife com fritas. “Insetos não vão substituir as carnes”, afirma Schickler. “O objetivo é complementar a alimentação. Existe hambúrguer, nuggets, feitos com a farinha de grilo”. Especialista em entomologia e pesquisador da inclusão de insetos na alimentação humana, Ramon Santos de Minas, concorda: “Acredito que a substituição seja improvável porque o Brasil culturalmente é apaixonado por carne”. Professor, biólogo e agrônomo, Santos de Minas trabalha com o tema no Instituto Federal de Mato Grosso do Sul.

 

Por Diogo Antonio Rodriguez / motherboard.vice.com/pt_br

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