sexta-feira, 24 de maio de 2019

Entrevista

BISPO DE GUARAPUAVA: Dom Antônio Wagner da Silva concede entrevista e fala de sua vida

Infância, convivência familiar, vida religiosa, nomeação para bispo, são alguns dos assuntos que fazem parte da entrevista concedida pelo bispo da diocese de Guarapuava.

18/03/2019 14:09:00


 

Quarto bispo da diocese de Guarapuava, Dom Antônio Wagner da Silva aceitou o convite do Centro Diocesano de Comunicação (CDC) para falar um pouco sobre sua vida e experiências enquanto religioso.

Durante a conversa, que foi realizada no estúdio do CDC, no quarto andar do Edifício Nossa Senhora de Belém, centro de Guarapuava, o bispo diocesano fez várias reflexões sobre a Igreja. Dom Wagner relembrou de muitos fatos importantes da sua infância, convivência familiar, vocação, vida sacerdotal e a nomeação para bispo. “Acredito que, uma das coisas mais explícitas que aconteceu, foi a minha vocação. Eu estava no terceiro ano do primário e a professora, com aquele jeitinho, distribuiu um papelzinho para cada um e perguntou: ‘o que é que você quer ser na vida?’. Naquele momento, eu e mais três colegas, colocamos a palavra ‘padre’. Quando a turma soube disso, todo mundo caiu na risada, pois não éramos dos mais santos. Essa foi a primeira manifestação muito clara”, destaca Dom Wagner.

SOBRE O BISPO

SOBRE O BISPO

Nascido no dia 25 de março de 1944, em Luz, Minas Gerais, a vocação sacerdotal se manifestou muito cedo no menino Antônio. Apoiado pela comunidade e pela família que sempre exerceu a base fundamental em sua vida, ele foi acolhido pela Congregação dos Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus (SCJ), na cidade de Lavras, no mesmo Estado. Dali em diante, a busca por conhecimento por parte do jovem Wagner foi sua messe, seu objetivo principal. Passou por várias cidades para seguir seus estudos, como Corupá, Brusque, Taubaté e São João Del Rey, onde obteve licenciatura em filosofia. No dia 11 de dezembro de 1971, Antônio Wagner da Silva era ordenado padre.

Família, amigos, conhecidos, gente que, de uma forma ou de outra passou pela vida do então padre Wagner, são unânimes em dizer: ele sempre deu prova de ser um sacerdote autêntico, um verdadeiro operário a serviço de Deus e das pessoas, sem distinção de quem quer que fosse ou da situação em que se encontrava.

Sua visão pastoral e sua ousadia de sonhador permitiram que se consagrasse como um verdadeiro homem das comunicações, inserindo, sem receio algum, a Igreja na mídia.

No mesmo ritmo de trabalho, o incansável padre Wagner provocou verdadeira revolução nos Grupos de Reflexão das paróquias e locais onde trabalhou, injetando em todos da comunidade grandes doses de entusiasmo e muita alegria, uma experiência que trouxe consigo de sua terra natal, o Estado de Minas Gerais.

Amante das artes de um modo geral, mas principalmente da boa música, o sacerdote foi agraciado com o dom do canto e, neste quesito, suas celebrações são as mais perfeitas manifestações da alegria e do louvou a Deus que é o alicerce da existência, o Mestre de todas as coisas.

Com uma retórica brilhante, as pregações do agora bispo Dom Wagner são de fácil entendimento e, por isso, tocam fundo na alma humana, fazendo com que a verdadeira Palavra transcenda ao físico e ecoe pelos corações e mentes, retumbando numa canção de amor pela vida.

Nomeado bispo no dia 29 de março de 2000 pelo Papa São João Paulo II, Dom Wagner foi ordenado e empossado como bispo coadjutor da diocese de Guarapuava no dia 18 de junho do mesmo ano com o lema episcopal: “Que todos sejam um”. 

Leia a entrevista na íntegra:

CDC: Como era a vida do menino Wagner, lá em Minas Gerais? Como era sua família, seus irmãos, amigos, as brincadeiras, enfim? (Eu sei de fonte segura que o senhor, quando menino, era meio levado [risos]). Peço que o senhor fale um pouco sobre isso...

Dom Wagner: Bem, isso tudo, quanto a ser levado, é você que está dizendo, ninguém garantiu nada... (Risos). Voltando à sua questão: eu sou o sétimo de oito irmãos. E, uma das coisas mais normais, era que eu era muito paparicado. Eu e minha irmã, mais nova. Os mais velhos cuidavam dos menores. E algo marcante em minha família, era que a gente vivia em meio a muita música. Crescemos assim. A música estava presente em nossa família, tanto por parte dos meus pais, quanto dos meus irmãos. Vivíamos em meio à alegria e o canto. Isso era fascinante.

CDC: Essa característica sua em relação à música é notável, marcante. Há alguma explicação para isso, Dom Wagner? Aliás, o senhor tem nome de músico...

Dom Wagner: ... É! O nome de músico vem da “lavra” do meu pai. Ele (o pai) era músico. A mãe dele, minha avó, era uma grande musicista. Meu pai foi maestro, enfim... Por isso, lá em casa nos temos: Rossini, Wagner, Carlos Gomes... E para quem não tem o nome de músico, tem Cecílio e Cecília, que vem da santa, padroeira dos músicos. Com isso tudo, entramos nesta especialidade, também por mamãe, que cantava muito e transmitiu tudo isso para os filhos.

CDC: Então, seria correto afirmar que: se Dom Wagner não seguisse a vocação religiosa, ele seria um músico hoje?

Dom Wagner: Era uma ideia (risos). Mas acredito que também poderia fazer e ser muitas coisas na vida. Porque a música, no interior, não era algo que trouxesse o ganha-pão, as condições para sustentar uma família. A gente aprendia, gostava, fazia, mas a música não rendia muito. Mas, por outro lado, como acontecia nos pequenos grupos de músicos, sempre tinha ao alcance em casa, essas presenças. Violão, violino, clarineta... Tudo isso fazia parte da vida da gente.

CDC: O senhor teve pré-disposição por algum instrumento ou se identificou mais com o canto?

Dom Wagner: Sim, o canto sempre esteve presente, mas também tive muito contato com esses instrumentos que eu falei antes, como a clarineta, o violão e, também a teoria. A gente ajudava como maestro no seminário.

CDC: Nota-se que tua família sempre teve uma ligação muito forte e este vínculo perdura até os dias de hoje. O senhor poderia dizer quais as brincadeiras lhe chamavam a atenção à época? O que o menino Wagner fazia para se divertir? Como era a relação com os pais? Havia certa severidade?

Dom Wagner: Uma das coisas mais interessantes ou importantes para nós era o quintal. As árvores representavam um mundo à parte. Subir e descer das árvores eram as diversões maiores. Mangueiras, goiabeiras e outras tantas. Em meio a essa fartura, também havia o jogo de futebol e, dentro de casa também havia a brincadeira divertida de esconde-esconde.

CDC: Quanto aos pais, como era a aceitação desta, digamos assim, “baderna” infantil? (Risos).

Dom Wagner: Eu diria que papai era muito ausente. Ausente fisicamente falando, é claro, pois ele viajava muito a trabalho e permanecia longo tempo fora de casa. Papai, por causa de seu trabalho, viajava um mês, dois meses... Ele era funcionário público, fiscal de rendas. Naquele tempo, o fiscal andava a cavalo, de carona, a pé e, muito raramente, com outros meios de transporte. Com isso, a gente tinha na mamãe, aquela pessoa que, com muito jeitinho, botava ordem na casa. Quando ela não estava, os irmãos mais velhos davam as ordens e a gente, muito gratuitamente, obedecia.

CDC: Dom Wagner, avançando um pouco no tempo, eu te pergunto: como foi a descoberta da vocação sacerdotal? Ela chegou naturalmente, meio que de um estalo?

Dom Wagner: Acredito que, uma das coisas mais explícitas que aconteceu, foi a minha vocação. Eu estava no terceiro ano do primário e a professora, com aquele jeitinho, distribuiu um papelzinho para cada um e perguntou: “o que é que você quer ser na vida?”. Naquele momento, eu e mais três colegas, colocamos a palavra “padre”. Quando a turma soube disso, todo mundo caiu na risada, pois não éramos dos mais santos. Essa foi a primeira manifestação muito clara.

Eu nunca fui coroinha por mais de um dia. Isso eu estava com oito anos. Diante da reação da turma, a professora passou a incentivar e parabenizar a nós quatro pela intenção. Desses, três foram para o seminário, dos quais eu me incluo. Dos que foram (para o seminário), dois se tornaram padres. E o que permaneceu como padre por mais tempo, fui eu.

CDC: Como foi a reação em casa diante dessa decisão?

Dom Wagner: Olha, a aceitação foi boa. Porém com uma preocupação. A família se perguntava: “O que esse menino vai fazer lá fora? Como vai sobreviver?”. A ideia era a que não tínhamos idade, tamanho para sair de casa, viver de forma diferente, convivendo com outras pessoas. Mas dali para frente, quarto ano primário, teria que resolver. Era preciso encontrar um lugar onde fosse possível continuar com os estudos. Essa foi a grande preocupação. Minha mãe passou a procurar esses espaços conhecidos para que eu pudesse viver a experiência, digamos assim.

CDC: Como foi seu ingresso na congregação Sagrado Coração de Jesus? Foi de forma natural?

Dom Wagner: Muito interessante isso. Lá em casa, não foi pensado, em nenhum momento, nos padres do Sagrado Coração de Jesus, que eram os padres que nós tínhamos na paróquia.

O contato maior foi com os Lazaristas, que aqui, nós chamamos de Vicentinos. Mas quando minha mãe e minha irmã chegaram lá, na casa da congregação e notaram que no local havia mato, bichos, como cobras, onça, e tantas coisas mais, a minha mãe e minha irmã disseram: “Não, aqui ele não pode ficar!”. E assim, foi passando. Depois disso, as duas partiram para o seminário Cristo Rei, na arquidiocese de Belo Horizonte, a uns 180 quilômetros de Formiga. Lá nesse seminário, todos usavam batina, desde criança. Era uma exigência da congregação. E outra coisa: por três anos, o seminarista não podia voltar para casa. Claro que elas não aceitaram.

Mas no domingo, chega lá em casa, um seminarista, que tinha o apelido de vovô, no seminário (risos). Dorival o nome dele. Bem, ele disse que soube que na família havia um menino, eu, que estava a fim de ir para o seminário. Minha irmã mais velha, que estava naquele dia “dona de casa”, disse assim: “A mãe dele está em uma romaria para Aparecida (Santuário Nacional de Aparecida, em São Paulo). Você volta amanhã que ela já vai estar aqui”. Na segunda-feira de manhã, ele voltou, conversou e aí, ele disse: “Mas aqui também tem seminário. Vai lá conversar com o padre”. A mamãe me levou lá. O padre Teobaldo me mostrou o lugar e a ideia das coisas na casa. Ele também disse que dali a uma semana, os meninos iam para o seminário. Esse foi o tempo que eu tive para prepara tudo. Tive a ajuda da Pastoral Vocacional, naquela época. Eu saí de casa com dez anos de idade, completei onze anos, no seminário... Aquela foi, para mim, uma situação natural, na qual eu me senti e me sinto, muito, mas muito feliz.

CDC: Sabemos que o povo mineiro é muito bairrista, muito da vizinhança. Como os vizinhos reagiram à sua ida para o seminário?

Dom Wagner: Olha, quando a ideia se espalhou, tinha uma família vizinha, a família Coelho, que era muito chegada lá em casa. Então, aquilo foi uma festa. O seu João Coelho foi procurar um dentista para arrumar os dentes para a ocasião especial; dona Ângela, ela já distribuiu afazeres, era uma roupinha daqui, uma coisinha ali para minha ida para o seminário. Renato fez uma malinha de madeira para eu guardar os meus pertences. Naquele tempo não havia a facilidade de se comprar malas como hoje. Eu te digo que foi um envolvimento muito grande naquela semana. Quando chegou a outra semana, logo na segunda-feira, estava tudo pronto e dali, éramos cinco, indo para o seminário.

CDC: Como foi sua chegada ao seminário? E a vivência?

Dom Wagner: Isso tudo foi, ao mesmo tempo uma surpresa e gerou novas descobertas. No seminário, muitas coisas nos chamavam a atenção. Futebol, por exemplo, os trabalhinhos que passamos a fazer. Fomos muito bem recebidos pelo reitor. Mas o que nos chamou a atenção mesmo foi o espaço. Você imagine: para quem vivia dentro de uma casa com bastantes pessoas, com alguns quartos, de repente, se deparar com algo tão grandioso e aberto, aquilo dava uma sensação de liberdade tremenda. O espaço do seminário era enorme. Nosso dormitório era maior do que a minha casa. Então, um lugar com mais de cinquenta meninos, todos mais ou menos na mesma idade, aquilo era fantástico. Explorávamos a mata, as plantações, as árvores. Também convivíamos e cuidávamos dos animais, galinha, coelho, porcos, vacas. Quer dizer: levamos muitos dias para termos uma ideia do lugar onde estávamos. Era um mundo novo. Nem deu tempo para ficarmos com muita saudade de casa. Como eu, havia mais uns cinquenta (risos). O padre precisava sair procurando cada um de nós pelos arredores.

CDC: Em se tratando do discernimento vocacional, como foi para o senhor entender isso depois que já estava no seminário? O senhor chegou a ter alguma dúvida?

Dom Wagner: Os primeiros anos foram encantadores. Eu poderia dizer assim que havia uma beleza, um encantamento naquela vida. A gente transpirava aquela existência, tanto é que meu irmão, um pouco mais velho do que eu, também resolveu ir para o seminário, empolgado pelos meus relatos. Eu me sentia muito bem naquele lugar. Eu me sentia pertencente àquele lugar. E meu irmão foi sim, para o seminário. Embora ele fosse muito diferente de mim, mas a perspectiva de ir para frente, dava ânimo. Nós sabíamos que dali, iríamos para Santa Catarina. A possibilidade de uma nova vivência era alimentada todos os dias. Isso fez com que as dúvidas e dificuldades fossem superadas dentro, é claro, do ambiente da realidade.

CDC: Quando o senhor veio para o Sul do Brasil, para Santa Catarina, houve algum choque, um impacto?

Dom Wagner: Eu não digo que foi um choque, mas o primeiro impacto que houve, foi quando nos demos conta de que, pegávamos um trem na segunda-feira de manhã, viajávamos a semana inteira (evidente que umas duas noites a gente passava em casas, ou em outros lugares no caminho), para chegar, no sábado, no seminário, por volta das 07h ou 08h da noite.

Saíamos de Formiga (MG) em dez ou quinze meninos, passávamos em São Paulo (SP), reuníamos uma turma que vinha de muitos outros lugares e juntos, ocupávamos todo um vagão de trem. Então, o impacto foi quebrado por esta algazarra que era a experiência de uma viagem de uma semana.

Ao chegar, a gente enxergava muitas coisas, como a casa grande e bonita, o rio, a paisagem diferente. Ao todo, éramos uns duzentos seminaristas. Aos poucos, nos organizávamos. Mas os veteranos nos pregavam peças e era engraçado. Mas muitos nos ajudavam e muito naquela nova vida.

Eu me recordo do padre José Fernandes de Oliveira (SCJ), o famoso padre Zezinho, que estava, naquela época, terminando a etapa de seminário. Convivemos com ele e ele, junto com outros, nos ajudava. Como era muito longe, ninguém cogitava muito a possibilidade de voltar para casa, de desistir.

Outro impacto que todos nós sentimos, foi o ritmo do estudo. Latim, todo dia. Além disso, naquele segundo ano do ginásio, estudávamos francês, inglês, matemática, além de outras matérias. Então, havia as horas de estudo, as horas de trabalho, as horas de divertimento. Aí, íamos para o rio e aquilo parecia um céu, uma beleza. E tudo isso, amenizava a saudade, a falta da família. E, no fim do dia, a gente não queria outra coisa, além de cama.

CDC: E a vocação? Como se definiu, como permaneceu neste período? Continuava sendo algo espontâneo ou havia a responsabilidade também?          

Dom Wagner: É preciso entender uma coisa: naquela época, se era para estudar, todos precisavam passar pelo internato. Tanto nós, no seminário, quanto os outros adolescentes e jovens, precisavam passar por esta experiência, a do afastamento, a experiência de morar fora. Então, te digo, que esse estilo de vida era para todos.

Mas a vida lá dentro, nos ajudava a encarar o lado religioso, o lado da fé. Como nossos professores, dez padres nos davam exemplos e ânimo. Era algo mais. Era um grande entusiasmo. Mas ninguém era obrigado a ficar. Cada um de nós, ia dando novos passos. Muitos saíram e se tornaram grandes pessoas. Talvez uns dez ou vinte por cento, ficavam. Agora, a ideia de ser padre, ela vem muito mais tarde, quando já se cultivou e se tem muito mais gosto pelas coisas da Igreja. Aos poucos, todos nós íamos aprofundando e crescendo. A vocação se mostrava, na medida em que íamos conhecendo a realidade. Isso tudo ajudou a despertar e a confirmar a escolha para a vida.

CDC: Nesse ínterim, como ficou a família? Como ficaram os irmãos, os parentes? E o contato com os pais, como era?

Dom Wagner: A essa distância, o contato maior era por carta. Uma carta por mês ou a cada dois meses, por exemplo. Era um momento muito especial quando o padre chagava com aquele maço de cartas e chamava pelo nome de cada um... Era uma alegria imensa. O telefone, naquele tempo, era coisa muito rara. Era um “trem” muito difícil de ser usado, pois era extremamente cara uma ligação e os contatos eram muito difíceis, as ligações caíam. Mas em dezembro e janeiro, a gente passava um tempo em casa.

CDC: Mas era possível se ter uma mescla entre a vivência de casa e a do seminário?

Dom Wagner: Sim. Mas algumas coisas a gente só percebia muito mais tarde. A convivência em casa, se tornava uma coisa muito especial. Aquilo que os irmãos, os vizinhos viviam todos os dias, para nós eram momentos diferentes e raros. Por isso, valorizados demais. As presenças, as dificuldades, nem sempre, a gente passava, por elas, afinal, estávamos no seminário.

CDC: Dom Wagner, quem o conhece, sabe muito bem que o senhor tem uma memória muito apurada, eu diria que fotográfica. Neste momento, eu quero perguntar: o que o dia 11 de dezembro de 1971 significa para o senhor? Ao se lembrar dessa data, o que ocorre dentro da cabeça e do coração do homem, Antônio Wagner da Silva?

Dom Wagner: Eu vou lembrar primeiro, o dia 10 de dezembro de 1971. Eu e meu colega que nos tornamos padres no mesmo dia, chegamos a Formiga para a ordenação no dia seguinte. Eu estava na janela conversando com minha mãe... Ela me botou assim, de lado e disse: “Olha bem nos meus olhos e responda: você quer ficar padre, padre mesmo para valer? Se é assim, então está bem; amanhã, vai acontecer... Mas, se você não quiser, ainda dá tempo de desistir. Não vá se tornar padre só para dizer que foi por causa de mim!”. E, nesse dia 10 de dezembro, eu tive que dar, à tardinha, a resposta para ela. Eu disse sim, e ali, foi, de fato, a minha ordenação. Ter que falar para minha mãe o que eu queria e que aquilo era para valer e para a vida inteira. Foi o maior compromisso que eu assinei. No dia seguinte, dia 11 de dezembro, foi um dia de festa, pois eu já tinha sido ordenado quando disse sim à minha mãe (lágrimas)...

Eu digo que foi um dia de festa porque, a minha irmã mais nova, naquele dia da minha ordenação, fez o casamento civil, pela manhã. À tarde, eu fui ordenado. No dia 12, na minha primeira missa, eu celebrei o casamento dela (emoção). Então, era tudo uma festividade, uma alegria. Foi um dia especial, ou melhor, foram dias especiais na miha vida e na história da nossa família...           

CDC: O senhor sempre se preocupou muito com a formação. Vivemos um período de baixa procura pelas vocações sacerdotais. Em se tratando de formação, a vontade de fazer esse trabalho, surgiu de forma natural? Como foi?

Dom Wagner: Depois de terminar o ensino médio, eu fui para o noviciado e me mantive na formação. Eu também sempre estive envolvido com o esporte, com os jovens e adolescentes, enfim.  Nos anos seguintes, isso sempre foi meu campo de trabalho. Além de atuar junto à formação litúrgica, com a Pastoral Vocacional, eu também trabalhava muito com os Escoteiros. Era uma grande paixão desenvolver este projeto, desde os Lobinhos, os Escoteiros, os Sêniores. E, ordenado, fiquei 25 anos trabalhando diretamente com os seminários e com a formação. Tenho um amor incondicional por este setor da Igreja.

CDC: Como foi para o senhor, em se tratando de clero, trabalhar com a formação e, de certa forma, também fazer, por muitas vezes, o papel de pai junto aos adolescentes e jovens?

Dom Wagner: A diferença é que no seminário éramos uma diversidade. Oito ou dez padres trabalhando, acabava por facilitar, para nós, os contatos. A divisão de tarefas para com os cuidados, permitia que a gente formasse, realmente, uma família. Havia muita liberdade. Mas quando era preciso falar um pouco mais sério, a gente chamava a pessoa do lado e explicava tudo. Nada de constrangimentos, de decepção.

CDC: Como foi receber a notícia para ser bispo?

Dom Wagner: Foi um imenso susto. Na oportunidade, Dom Murilo Krieger, que era arcebispo de Maringá, telefona para a paróquia em Joinville onde eu estava, me procurando. Eu já estava saindo de férias. Viria até Curitiba e ali, faria compras e o senhor que estava comigo, voltaria com o carro e eu seguiria para Minas (Gerais), para passar uns poucos dias com os parentes. Ele (Dom Murilo) insistiu tanto e me obrigou a encontrá-lo no aeroporto Afonso Pena, em São José dos Pinhais. Lá, nos sentamos a uma mesa de bar, ele tirou do bolso uma carta e me entregou. Você imagina, o susto que eu levei?! Olhando a carta, Dom Murilo me disse que não era preciso responder naquele momento. Porém, disse ele: “depois de pensar bem, peço que entregue uma carta resposta para o Núncio e outra para o Papa”. Eu perdi o sono pelo resto da viagem.  Carreguei a carta durante quatro dias, pois era carnaval e depois veio a Quarta-feira de Cinzas e eu só podia pôr a carta no correio na quinta-feira à tarde. Até ali, era um segredo meu, mas que, de certa forma, me incomodava...

CDC: Sua nomeação para bispo da diocese de Guarapuava, em 29 de março de 2000, foi um momento marcante para toda a Igreja. Mas como foi para o senhor aquele momento?

Dom Wagner: Evidentemente, que a família, os amigos e as pessoas próximas, ficaram lá no céu com o momento, mesmo porque, ninguém esperava. O único que esperava, foi o bispo que me ordenou padre. No fim da ordenação, na sacristia, com meus pais e outras pessoas, ele passou a mão em minha cabeça e disse: “este vai ficar bispo”.  Quando saiu, então, a nomeação, ele fez questão de me ligar e dizer: “Não falei para você?!”. (Risos).

CDC: Dom Wagner, o senhor tem medo?

Dom Wagner: O medo é uma coisa que acompanha a gente, quase sempre. Medo, insegurança, às vezes, são elementos e situações com as quais temos que conviver. É possível que, quando menos se espere, algo desperte esse sentimento. É um sentimento natural com o qual temos que lidar...

CDC: O senhor é um homem de oração. O que é a oração, de fato, para Dom Wagner, enquanto católico?

Dom Wagner: É um alimento. Se a gente não se dedicar, não se apegar à oração, tudo aos poucos, perde o sentido. A oração alimenta a caminhada, alimenta as decisões que a gente terá que tomar, alimenta o relacionamento com as outras pessoas. A oração também permite, por muitas e muitas vezes, aquele “sentir-se com”. A oração permite que entremos na vida das pessoas com as quais convivemos e passemos a fazer parte de seus dilemas, medos, angústias. Oração é transformação.

CDC: Projeto paranaense “Cada comunidade uma nova vocação”. Como o senhor percebe esse trabalho?

Dom Wagner: É uma questão natural. Por que natural? Porque ás vezes, a vocação é imperceptível, mas surge e se destaca. Trabalhando com vocações, a gente sempre rezou para que isso acontecesse na vida de outros. É importante que haja essa resposta a partir do discernimento, da oração.

O Papa São João Paulo II, nos anos 1980, tinha uma frase que costumava dizer: “As vocações são a resposta de um Deus providente à comunidade que reza”. Então, essa vontade, esta crença, sempre animou a oração e a caminhada da gente. E hoje, retomando esta frase, juntamente com a frase que Cristo disse: “Pedi ao Senhor da messe que envie operários para a messe, pois a messe é grande e os operários são poucos”. (Mt 9,35-38) Sejam casais, religiosos, lideranças, todos têm a missão de trabalhar este despertar vocacional. Todos nós somos vocacionados a alguma coisa. A vida é a maior de todas as vocações...

CDC: O senhor é também um homem de comunicação. Aqui no Regional Sul 2 da CNBB, o senhor é o bispo referencial desta Pastoral. Em seu entender, em que as comunicações podem contribuir para que o despertar tanto da evangelização quanto das vocações ocorram e se multipliquem?

Dom Wagner: Sempre que nós tivermos dinheiro, devemos investir em comunicação. Nós precisamos tornar a comunicação algo do dia a dia das nossas conversas, da nossa vida. Do dia a dia da evangelização, enfim. Mesmo porque, chegar até às pessoas, não é mais com aquele trem que eu comecei, viajando de Minas Gerais para Santa Catarina. Não. É tudo muito rápido hoje. Também não se faz nem se deve fazer comunicação com aquele telefone que levava horas e horas para que fosse feita uma ligação. É tão rápido que a gente precisa, sempre que possível, investir para que assim, possamos estar junto das pessoas, junto das comunidades, trazendo o conhecimento e tudo aquilo que a comunicação tem de bom, de melhor, para nós e para nossas comunidades. É fundamental vivermos e investirmos na comunicação.

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