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Com esperança de vida melhor, venezuelanos chegam a São Paulo

Venezuelanos são acolhidos pela paróquia Santa Cruz de Itaberaba, na Região Brasilândia.

14/03/2019 14:27:00


Depois de cerca de cinco horas de viagem aérea de Boa Vista (RR) a São Paulo (SP), com conexão em Brasília (DF), o grupo de sete imigrantes venezuelanos foi acolhido na casa preparada pela Pastoral do Migrante da paróquia Santa Cruz de Itaberaba, na Região Episcopal Brasilândia, no dia 08 de março.

As primeiras a entrarem na casa foram as crianças: Isabella Victoria Lezama Yepez, 9, Samantha Valentina Lezama Yepez, 7, e Juan Pablo Lezama Yepez, 4. Filhos do casal Cruz Angel Lezama Natera, 47, e Yussi Elizabeth Yepez de Lezama, 41, os pequenos fizeram uma festa quando entraram no quarto preparado pelas famílias e viram as camas repletas de brinquedos.

Já os irmãos Marvin Joel Arnal Gomez, 28, e Josué Manases Arnal Gomez, 22, estavam mais tímidos. Somente com a roupa do corpo, portavam apenas uma pasta com os documentos.

Os imigrantes chegaram a São Paulo com o desejo de conseguir emprego e logo ter condições de alugar uma casa e poder prover o seu sustento.

SOLIDARIEDADE

A casa foi mobiliada com doações, assim como os alimentos e utensílios domésticos que compõem a residência. O aluguel e as despesas com água e energia elétrica serão pagos pelo Serviço Pastoral do Migrante (SPM), enquanto os paroquianos arcarão com as demais despesas do dia a dia.

No almoço oferecido pela comunidade, estavam alguns voluntários acompanhados pelo pároco, Padre Edemilson Gonzaga. Durante a refeição, os imigrantes compartilharam com a reportagem do jornal O São Paulo o drama vivido em seu país e suas esperanças.

CRISE ECONÔMICA

Engenheiro eletrônico, Cruz partiu de sua terra natal para Roraima há um ano e meio. Com um bom cargo na empresa estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA), ele se viu obrigado a renunciar ao cargo e deixar o País após o agravamento da crise que desvalorizou enormemente a moeda local. Em 2007, Cruz recebia um salário equivalente a mil dólares. Dez anos depois, seu salário equivalia a cinco dólares. “Com isso, eu não poderia mais sustentar minha família, pagar a escola de minhas filhas, pois o ensino público era muito precário”, relatou.

Em uma de suas férias, Cruz foi com a família a Boa Vista para verificar a possibilidade de residir na cidade. Em seguida, deixou a esposa e os filhos na casa de uma cunhada que já morava lá, e retornou à Venezuela para formalizar seu desligamento da empresa, pagar contas pendentes e deixar de vez o País.

FALTA COMIDA

O casal destacou que a logística para conseguir alimentos era muito difícil, por meio de um programa do governo, cujos critérios de seleção dos beneficiários, segundo o relato deles, são mais políticos do que humanitários. “Há pessoas que não comem praticamente nada. Eu conheci famílias que ficam dias sem comer e estão muito debilitadas”, disse Yussi.

A venezuelana chegou a passar a noite nas filas intermináveis para comprar comida e produtos de necessidade básica. “A primeira vez que enfrentei essas filas foi há quase cinco anos, quando Juan Pablo estava prestes a nascer, para comprar fraldas”, lembrou.

Ainda segundo a mãe de família, a classe média praticamente não existe no País. “Ainda há famílias com boas casas, carros, mas sem dinheiro para mantê-los, sem sequer ter condições de comer.” Outro problema relatado é o alto índice de violência desencadeado pela crise. “Tínhamos medo de andar nas ruas. Havia gangues armadas em motos que assaltavam as pessoas”, completou a imigrante.

SITUAÇÃO POLÍTICA

Na percepção do grupo de imigrantes, a crise no País começou a ser percebida logo após a morte do presidente Hugo Chávez, em 2013. Para eles, o povo depositou uma esperança no líder que depois não se concretizou. “Antes, havia dois grupos políticos muito fortes que se alternavam no poder por décadas. Porém, ambos eram ruins e corruptos. Chávez surgiu com a promessa de ser uma alternativa a essa situação, como um salvador da pátria, sobretudo dos mais pobres. O que vemos hoje é o contrário. Os pobres são os que mais sofrem com a miséria.”

Os imigrantes reconhecem que muitas pessoas estão esperançosas com a ascensão do autoproclamado presidente interino da Venezuela, Juan Guaidó. No entanto, eles ainda estão receosos de que a mudança possa vir por meio de outro “salvador da pátria”.

“O culpado por todos os problemas na Venezuela é o próprio venezuelano, porque não assumiu sua responsabilidade como pessoa, dando poder a alguém que não sabe governar para o bem de todos”, enfatizou Cruz.

FUTURO DO PAÍS

Quando perguntado se tem esperança de retornar em breve a seu País, Cruz abaixou a cabeça por um instante e disse que não crê que a situação se resolva tão logo, e que o processo não é simples. “É um problema muito complexo. A Venezuela não vai se reerguer em pouco tempo. Todas as estruturas do País estão corrompidas e debilitadas. Para se superar isso, são necessários recursos financeiros e humanos. A grande maioria dos profissionais com conhecimento técnico foi embora. Eu estou profundamente triste pela situação do meu País”, explicou.

EMPREGO

Os jovens irmãos Gomez estavam em Boa Vista havia quatro meses. Deixaram seus pais e irmãos em busca de condições de tirá-los do País.

“Nós queremos trabalhar no que for possível, construção civil, marcenaria, qualquer coisa. Temos esperança de ajudar os nossos familiares a sair da situação que estão vivendo em nosso País”, contou Josué. “A grande dificuldade em Roraima é que não há emprego, nem oportunidades para provermos o próprio sustento e ter uma vida melhor”, acrescentou Marvin.

Foi a falta de emprego em Roraima que também motivou a vinda da família de Cruz para o Sudeste. “Minha expectativa é conseguir um emprego. Eu não vim para pedir, eu vim para dar. Deem-me a oportunidade de mostrar que posso ser útil para a sociedade”, afirmou o engenheiro.

“Na Venezuela, temos a nossa casa, mas não temos comida nem escola para nossos filhos. Não era o que desejávamos; deixar nosso lar, nossa vida na nossa terra. Essa situação toda que nos forçou a sair”, completou Yussi.

ACOLHIDA

No domingo, 10, os imigrantes foram acolhidos em uma das missas da paróquia Santa Cruz. Na segunda-feira, 11, os agentes da Pastoral do Migrante começaram a ajudar o grupo a matricular as crianças na escola e no serviço público de saúde, além de ajudar os adultos a procurar emprego. A paróquia também irá oferecer um curso de Português para eles.

“Que essa iniciativa possa inspirar outras comunidades a abrir seus corações para acolher esses irmãos que vieram para o Brasil em busca de uma vida mais digna”.

 

Fernando Geronazzo / Jornal O São Paulo

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