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Teologia em Gotas: A finalidade da teologia católica, hoje, “é apresentar em circunstâncias atuais, o Evangelho vivo”

Nesta reflexão, sendo que, no dia 2 de novembro a Igreja Católica, comemora todos os fiéis defuntos, a pergunta é: Rezar pelas almas ou pelos defuntos?

17/10/2017 10:16:00


Rezar pelas almas ou pelos defuntos?

No anterior artigo (Boletim 460), tratamos da seguinte pergunta: Como a Mãe de Jesus Cristo, Maria é crente, discípula e missionária?

Nesta reflexão, sendo que, no dia 2 de novembro a Igreja Católica, comemora todos os fiéis defuntos, a pergunta é: Rezar pelas almas ou pelos defuntos?

Um amigo, membro de uma Igreja histórica contou o seguinte fato:

“Fui convidado para uma missa de sétimo dia de falecimento de um conhecido da família. O comentador da cerimônia convidou os presentes a orar pelas almas de 14 falecidos, enumeradas pontualmente, depois, pediu para orar pelo defunto em questão, e finalmente pelas almas do purgatório. Como o padre, durante a missa não fez referência a estes convites, fiquei sem entender a situação do amigo falecido”.

PRESSUPOSTOS PARA ENTENDER

Na teologia, a doutrina que ensina tudo o que acontece no final da vida, chama-se Escatologia. (Tratado das últimas coisas: morte, juízo particular, céu, inferno, retorno de Cristo, ressurreição universal). Explicação encontrada no Catecismo da Igreja Católica (CIC, 988-1065).

A Igreja Católica na sua doutrina oficial, Direito Canônico ou  Liturgia nunca utiliza a palavra alma, para referir-se aos defuntos, porém, sim para os vivos, em referência ao livro do Gênesis 2,7, que define o ser humano como uma alma vivente. No direito Canônico 1177 aparece o conceito de Fiel defunto, fiéis defuntos “Fideles Defuncti”. Na liturgia, nas diversas orações eucarísticas (anáforas) utilizam-se os conceitos filhos e filhas, irmãos e irmãs.

Na Igreja Católica, a diferença em relação a outras Igrejas Cristãs, alicerçada na Sagrada Escritura e na Tradição, reza pelos fiéis defuntos (CIC 958; 2 Mac 12,46).

Os católicos acreditam no purgatório. Uma explicação catequética seria assim: O falecido, no instante do juízo particular (CIC 1022) corrobora que está cheio de imperfeições para seu imediato abraço eterno com o Pai. Então, sente dor e necessidade de purificação e limpidez pessoal, na santidade proposta no batismo para ser digno da comunhão eterna com a Trindade e os santos. O purgatório não é um lugar, mas uma situação existencial, não tem tempo (porque o tempo é uma realidade do mundo dos vivos: presente, passado e futuro). Tem eternidade, que é um contínuo presente. O purgatório é um acrisolamento comovente na espera da sentença misericordiosa do Juiz: “Servo fiel” (Mt 25,21), “venha e receba o Reino que meu Pai preparou para você desde a criação do mundo” (Mt 25,34).

LINGUAGEM E COMPREENSÃO DA FÉ

Na atualidade, a não utilização de uma linguagem atualizada na teologia e, sobretudo, na catequese, dificulta falar e compreender o que acontece no final da nossa salvação eterna, faltando conceitos compreensíveis para o homem científico e tecnológico de hoje.

No caso da pergunta do irmão crente, acima, de forma simplíssima poder-se-ia dizer o seguinte:

Muitos católicos não conhecem bem os fundamentos de sua fé (1 Pedro 3,15), por isso a formulam e a praticam de forma lamentável. Vejamos o exemplo em questão:

REZAR PELA ALMA DE ALGUÉM. POR QUE SE FALA ASSIM?

1º - Na antropologia filosófica aparecem concepções do que possa ser o ser humano, o indivíduo, a pessoa. Uma delas é a visão grega. Para os gregos antigos, todos os seres que se movem têm matéria e alma. Corpo e alma. Alma, animus, é que dá a vida. Plantas têm alma vegetativa, animais têm alma sensitiva, pessoas têm alma racional. A alma racional é imortal. A morte é a separação da alma do corpo. Morrer é livrar-se a alma do cárcere do corpo. Esta visão entrou na teologia, por isso o comentador pede pela alma do falecido, em lugar de rezar pelo falecido mesmo. Porque o corpo, nesta visão, é compreendido como um acessório do ser humano, não o constitutivo essencial do indivíduo, como se entende na reflexão bíblica.

2º - Outra visão de ser humano é a bíblica: a pessoa é um ser indivisível. É uma unidade de uma dimensão material e espiritual. A união do sopro de vida com o barro inanimado tornou o homem uma alma vivente. Diferente da visão grega, aliás, o homem não tem alma, ele é uma alma vivente (ele é corpo que é vida pulsante).  “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou-lhe nas narinas o fôlego da vida; e o homem tornou-se alma vivente.” (Gênesis 2:7; I Tessalonicenses 5:23; Sal. 10,18).

No exemplo, em questão, rezar pelo falecido X (rezamos por Pedro II, no sétimo dia de seu falecimento) e não pela alma do falecido X se percebe uma inserção sadia na fé bíblica.

COMEMORAÇÃO DOS FIEIS DEFUNTOS

Desde o amanhecer dos tempos, o homem intuiu que esta vida histórica, não terminava com a morte e procurou uma explicação da além-morte, inclusive saber como era a relação com os falecidos. Esta percepção foi alimentada, mantida, explicada e justificada até os dias de hoje por crenças, filosofias e religiões. A compreensão da vida, após a morte biológica, aparece como um constitutivo essencial do ser humano. O homem busca sentido à sua vida.

A fé cristã também tem uma visão sobre o que acontece com o ser humano, nas proximidades e além-morte. A partida do ser querido para além da morte causa tristeza, dor e diversos sentimentos e comportamentos por parte dos que ficam. Neste contexto, o apóstolo Paulo instrui os cristãos: “Irmãos, queremos que saibam a verdade a respeito dos que já morreram, para que não fiquem tristes como aqueles que não têm esperança. Nós cremos que Jesus morreu e foi ressuscitado. Assim, cremos que Deus vai trazer, com Jesus, os que morreram crendo nele”. (1 Tes 4, 13-14). Em Cristo Ressuscitado encontramos a verdade e o pleno sentido da vida.

A comemoração dos Fiéis Defuntos na Igreja Católica responde  a uma das verdades da fé que proclamamos no símbolo dos Apóstolos: “Creio na comunhão dos Santos” (CIC 946). “Reconhecendo cabalmente esta comunhão de todo o Corpo místico de Jesus Cristo, a Igreja terrestre, desde os tempos primeiros da religião cristã, venerou com grande piedade a memória dos defuntos” (CIC 958).

Desde sempre, o homem preocupou-se pelos seus mortos e procurou conferir-lhes uma espécie de segunda vida, através da atenção, do cuidado e do carinho. De certa maneira, deseja-se conservar a sua experiência de vida; e, paradoxalmente, como eles viveram o que amaram, o que temeram e o que detestaram, nós descobrimo-los precisamente a partir dos túmulos, diante dos quais se apinham recordações. Estas são como que um espelho do seu mundo.

Por que é assim? Porque, não obstante, a morte seja com frequência um tema quase proibido na nossa sociedade e haja a tentativa contínua de eliminar da nossa mente até o pensamento da morte, ela diz respeito a cada um de nós, refere-se ao homem de todos os tempos e de todos os espaços. E diante deste mistério todos, também inconscientemente, procuramos algo que nos convide a esperar, um sinal que nos dê consolação, que abra algum horizonte, que ofereça ainda um futuro. Na realidade, o caminho da morte é uma senda da esperança, e percorrer os nossos cemitérios, como também ler as inscrições sobre os túmulos é realizar um caminho marcado pela esperança de eternidade. (Bento XVI: audiência Geral, 02/11/2011).

REZAR PELO FIEIS DEFUNTOS

O apóstolo Paulo nos faz uma convocação: Rezem sempre (1 Tes 5,17; Ef 6,18). A nossa vida alcança sentido e verdadeira plenitude se direcionada à relação e intimidade com Deus a imitação de Cristo que forma com o Pai uma extraordinária e íntima unidade, até tal profundidade que Jesus afirma: ”Quem me vê, vê também o Pai. - Eu estou no Pai e o Pai está em mim” (Jo 14,15). É na oração que o cristão se coloca nesse caudal de vida e amor que existe entre Jesus e o Pai. Isto é, a oração é a torrente de amor, misericórdia, vida e poder que circula entre o Filho Jesus e o Pai. Quem ora, está com Jesus e Jesus está no coração do Pai (Jo15). Todos nós batizados, somos chamados a entrar nessa torrente de amor entre Jesus e o Pai pela oração, que no símbolo chamamos Comunhão dos Santos. Assim, os batizados peregrinos na terra, os falecidos de todos os tempos, na eternidade, inseridos no amor e misericórdia da Santa Trindade formamos uma comunhão de bens, de amor, solidariedade, ajuda mutua e recíproca e felicidade compartilhada. Na eucaristia, encontramos o zênite desta comunhão, “porque é por este sacramento que nos unimos a Cristo, que nos torna participantes do seu Corpo e de seu sangue para formarmos um só corpo” (CIC1331): a família de Deus trino.

Finalmente, rezamos não para que o falecido seja salvo, mas, na “comunhão dos santos”, unirmos na ânsia que eles têm de estarem plenos para a visão e encontro eterno com Deus e os salvados. E, também, para que eles nos ajudem a confeccionar o vestido exigido para as bodas do Cordeiro (Ap 19,9) e todos juntos, usufruir a festa eterna da salvação.

Sugere-se como leitura de fácil aprofundamento o Livrinho “Creio na Vida eterna” – Frei Boaventura Kloppenburg. Editora Pão e Vinho. Guarapuava. 2008.

 

Germán Calderón Calderón