Entrevista

GUARAPUAVA: padre Edvaldo Nogueira da Silva fala da Pastoral Afro-Brasileira na diocese Guarapuava

O religioso discorreu sobre discriminação, memórias do negro no país e aceitação da cor da pele e dos costumes afrodescendentes.

14/12/2017 08:40:00


O dia 20 de novembro tem um significado muito forte em todo o Brasil. Nesta ocasião, celebra-se no país, o “Dia Nacional da Consciência Negra”. A data é um tributo a Zumbi dos Palmares, um negro que resistiu aos desmandos e lutou até o fim contra a escravidão no país, o último da América a pôr fim nesta prática perversa, atroz e que atenta sem piedade contra a vida humana e sua dignidade.

A data comemorativa e também de busca por igualdade de direito, foi oficialmente instituída em todo o país através a lei nº 12.519, de 10 de novembro de 2011. No entanto, o dia 20 de novembro não é considerado um feriado nacional.

Apesar disto, milhares de cidades do Brasil decretaram feriado municipal neste dia. A data também é considerada feriado estadual nas seguintes Unidades da Federação: Alagoas, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Rio de Janeiro e Roraima.

O Centro Diocesano de Comunicação (CDC) da diocese de Guarapuava entrevistou o coordenador da Pastoral Afro-Brasileira na diocese, padre Edvaldo Nogueira da Silva, da congregação Salesianos de Dom Bosco (SDB). Padre Edvaldo é pároco da paróquia São João Bosco em Guarapuava desde o dia 21 de fevereiro de 2016.

O religioso discorreu sobre discriminação, memórias do negro no país e aceitação da cor da pele e dos costumes afrodescendentes. “Esta memória é dolorosa e revoltante, pois evidencia o negro somente como escravo. Infelizmente, hoje, ainda sofremos resquícios do Brasil escravocrata. Entretanto, há pequenos sinais de mudança no tratamento por causa de talentos no esporte, na música, na arte, na política, na religião, dentre outros”, observa o  assessor.

SOBRE PADRE EDVALDO

Padre Edvaldo Nogueira da Silva nasceu no dia 29 de agosto de 1983, fez a profissão perpétua em 26 de dezembro de 2009, foi ordenado diácono no dia 12 de fevereiro de 2011. Sua ordenação sacerdotal foi no dia 11 de dezembro de 2011.

Ele pertence à Inspetoria Salesiana do Sul do Brasil – São Pio X, que tem sua sede em Porto Alegre. Nasceu em Massaranduba – SC. É o filho mais velho de Cacildo Ferreira da Silva (falecido no dia 04 de novembro de 2016) e Irene de Paula Nogueira da Silva. Tem mais três irmãos: Edinaldo, Eliane e Elaine.

Fez o aspirantado (colégio interno) Salesiano de 1999 a 2000 na cidade de Ascurra, SC, onde cursou o 1º e 2º anos do ensino médio. Terminou o 3º ano do ensino médio no aspirantado São Domingos Sávio em Curitiba – PR, em 2001. Em 2002, ingressou no pré-noviciado salesiano na cidade de Viamão – RS, tendo passado em 2003 para o noviciado salesiano na cidade de São Carlos – SP. Concluiu então o noviciado com a emissão da profissão religiosa temporária (primeira profissão religiosa) na Sociedade de São Francisco de Sales (Congregação Salesiana), no dia 24 de janeiro de 2004, candidatando-se então ao presbiterado.

De 2004 a 2005, esteve no pós-noviciado, em Viamão – RS, onde concluiu o curso de Filosofia, e pelos próximos dois anos (2006 e 2007) exerceu a etapa formativa do tirocínio no Colégio Salesiano Dom Bosco, em Santa Rosa – RS.

Em 2008, foi transferido para a Inspetoria Salesiana de São Paulo, para iniciar o curso de Teologia no Instituto Pio XI, no Alto da Lapa, onde residiu na Comunidade Santo Tomás de Aquino. Emitiu sua profissão perpétua no dia 26 de dezembro de 2009, na comunidade Nossa Senhora Auxiliadora, em Massaranduba – SC, retornando a São Paulo para continuação de seus estudos.

No dia 12 de fevereiro de 2011, foi ordenado diácono da Igreja pela imposição das mãos de Dom Hilário Moser, SDB, bispo salesiano emérito de Tubarão – SC. Exerceu seu ministério diaconal, durante os finais de semana, na paróquia Santa Teresinha, SP.

Foi ordenado padre também pela imposição das mãos de Dom Hilário Moser, no dia 11 de dezembro de 2011, em Massaranduba – SC.

Leia a entrevista:

CDC: Para você, o que significa ser negro no Brasil? Como o país trata seus negros?

Pe. Edvaldo: Ser negro é dom de Deus. Há um significado teológico na existência de cada ser humano, inclusive no “ser negro”. Para entender o significado do negro no Brasil é preciso fazer memória da história. Esta memória é dolorosa e revoltante, pois evidencia o negro somente como escravo. Infelizmente, hoje, ainda sofremos resquícios do Brasil escravocrata. Entretanto, há pequenos sinais de mudança no tratamento por causa de talentos tais como no esporte, na música, na arte, na política, na religião, dentre outros setores. Oxalá, possamos crescer nos sinais de mudanças, a partir do protagonismo de talentos, para que haja uma sociedade mais justa e fraterna.

CDC: No Paraná, o negro enfrenta dificuldades em se tratando de viver sua identidade, seu estilo?

Pe. Edvaldo: A identidade do negro é ser imagem é semelhança de Deus (cf. Gn 1,26), assim como todo ser humano. Entretanto, cada ser humano, inclusive o negro, procura assemelhar-se com Deus a partir da cultura, da educação. No Paraná existe uma cultura religiosa muito forte. Assim sendo, o “estilo” do negro no Paraná é próprio da cultura local em que foi educado e evangelizado. É preciso esclarecer: existem manifestações da cultura africana como, por exemplo, na alimentação, na música, no vestuário. Portanto, nada impede de o povo negro retornar às suas raízes e manifestar esse estilo. A dificuldade é mais existencial. Isto é, há discriminação e falta de oportunidades.

CDC: Em Guarapuava, em tua percepção, também há discriminação, preconceito para com pessoas negras?

Pe. Edvaldo: Discriminação e preconceito existem. Há tempos que são mais explícitos, há tempos que são menos latentes.  

CDC: Há algum tipo de discriminação que parta do próprio negro? Ele chega a se sentir diminuído enquanto pessoa?

Pe. Edvaldo: Acredito que sim. Esta discriminação subjetiva é fruto da baixa autoestima, da falta de oportunidade, da “lei de mercado” que prioriza, em muitos casos, um padrão estético próprio da cultura europeia, do pensamento retrocado do “sempre foi assim” e, principalmente, da cultura escravocrata brasileira.

CDC: Dia da Consciência Negra: em tua maneira de entender, o que esta data significa para o país, sobretudo, para os povos negros?

Pe. Edvaldo: A comemoração do dia 20 de novembro como “Dia da Consciência Negra” surgiu de uma proposta do Grupo Palmares, no ano de 1971, em Porto Alegre, com objetivo de homenagear Zumbi dos Palmares, ícone da resistência contra o racismo e a discriminação. Acredito que esta data significa para o povo negro o que disse São João Paulo II, em Santo Domingo (1992): “A estima e o cultivo dos valores afro-americanos, enriquecerão infalivelmente a Igreja” e acrescento: a sociedade também. No Brasil, no Documento 65 da CNBB, número 59: exorta a todo o Povo de Deus a colocar-se a serviço da vida e da esperança, “acolher, com abertura de espírito as justas reivindicações de movimentos – indígenas, da consciência negra, das mulheres e outros – (…) e empenhar-se na defesa das diferenças culturais, com especial atenção às populações   afro-brasileiras e indígenas” (CNBB, Doc. 65, nº 59).

CDC: Quando se aborda o assunto “cotas raciais”, há muita discussão acerca do tema. Como você avalia esta atitude que é comprovadamente mais política do que humana?

e. Edvaldo: Para responder a essa pergunta é preciso retornar à resposta da primeira pergunta: todos somos imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1,26). Isto é, temos iguais condições de aprender e desenvolver. Entretanto, devido à herança escravocrata do Brasil colônia é notório a falta de oportunidades do negro para aprender e se desenvolver. As “cotas raciais” são uma das possibilidades. Elas não resolvem a situação. O problema é existencial. Falta alimentação, moradia, saneamento básico.

CDC: A Pastoral Afro-Brasileira, através de seu trabalho junto às demais entidades, consegue abrir portas para que o negro se insira na sociedade?

Pe. Edvaldo: Sim. É uma possibilidade. Entretanto, o objetivo primeiro da Pastoral é conduzir seus membros ao encontro pessoal com Jesus Cristo. Ajudá-los a crescer na consciência de discípulos missionários e colaborar, cada um com seu talento, na construção do Reino de Deus. Segundo, a Pastoral Afro possibilita abrir as portas da consciência crítica. Isto é, para vivermos em uma sociedade mais justa e fraterna é preciso plantar fé, esperança e caridade.

CDC: Em teu ponto de vista, padre, como as escolas podem trabalhar a história da escravidão no Brasil e, ao mesmo tempo, banir o preconceito?

Pe. Edvaldo: Uma possibilidade é o sistema preventivo. São João Bosco, um sacerdote católico italiano e fundador da Congregação Salesiana, ensina que a “educação é obra do coração”. A história da escravidão no Brasil precisa ser interpretada pela razão e pelo coração. Isto é, se faz necessário conscientizar as crianças, adolescentes e jovens que a cultura escravocrata do Brasil Colônia foi desumana. E, portanto, a busca para encerrar o preconceito se dá na unidade da consciência crítica entre a razão e o coração. O contrário disso é fundamentalismo.

CDC: Enquanto negro você já sofreu algum tipo de discriminação aqui em Guarapuava ou em outro lugar?

Pe. Edvaldo: Não sofri preconceito em Guarapuava. Pelo contrário, sou muito bem acolhido e amado.

CDC: Para finalizar: Em teu modo de entender, padre Edvaldo, houve algum avanço, principalmente no respeito e aceitação para com as pessoas negras?

Pe. Edvaldo: Sim, considero que houve um avanço significativo, mas também sei que há muito a ser melhorado e trabalhado neste sentido.

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