Entrevista

ENTREVISTA: “A Igreja Católica é a última que apaga a luz”

O bispo espanhol Dom Juan José Aguirre atua há 17 anos em uma diocese localizada na República Centro-Africana que desde 2013 enfrenta grandes dificuldades.

09/05/2018 17:05:00


Nascido na Espanha, Dom Juan José Aguirre, 63, vive há 38 anos na África Central, como missionário comboniano, e há 17 anos é bispo na diocese de Bangassou, na República Centro-Africana. O cenário caótico do País com o pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do mundo está ainda pior desde 2013, com a chegada do grupo islâmico fundamentalista Séléka e com a ação violenta dos grupos não mulçumanos chamados de “anti-Balaka”.

Dom Aguirre esteve no Brasil em abril a convite da Ajuda à Igreja que Sofre (ACN) e falou aos bispos brasileiros na 56ª Assembleia Geral da CNBB. Antes, concedeu esta entrevista ao O SÃO PAULO.

Leia a íntegra a seguir:

O SÃO PAULO: – O senhor vive há quase quatro décadas na África Central como missionário. Como isso impactou na sua experiência de fé?

Dom Juan José Aguirre: - Você estuda Teologia, Filosofia e Antropologia e pensa conhecer sobre tudo, mas chega na África Central e encontra um jeito de vida completamente diferente, que leva você a entender a vida de outra maneira. Isso mudou completamente meus pensamentos e me obrigou a ser muito mais humilde.

O SÃO PAULO: - Como é Bangassou, a diocese onde o senhor é bispo há 17 anos?

Dom Juan José Aguirre: - Bangassou é uma diocese grande, com 60 mil quilômetros. É uma diocese na selva tropical. Para se ter ideia, as três cores de Bangassou são o vermelho, dos caminhos da selva; o verde, da selva tropical e o azul, do céu. Não há carros, ruas, asfalto ou casas. A Diocese tem 11 missões e cerca de 300 capelas. A vocação missionária, se eu posso descrevê-la de modo figurado, é como uma moeda com duas faces: de um lado aparece a palavra evangelização – levar o Evangelho, formar comunidades, fazer crescer a Igreja – e do outro, a palavra desenvolvimento humano, pois todos os projetos que temos são para que o homem não seja vítima do homem, para que tenha direito e que esteja bem. E se me perguntar o que une essas duas faces da moeda, eu direi que é o amor, o amor que nós missionários temos para estar ali.

O SÃO PAULO: - mas tem sido uma sobrevivência difícil, especialmente pela presença dos radicais islâmicos, não?

Dom Juan José Aguirre: - Sim. Isso já dura cinco anos. Em março de 2013, radicais islâmicos entraram à força na República Centro Africana. Chegaram por Chade, que é um país que há ao norte, financiados pelos países do Golfo com petrodólares. Esses países estão fomentando o jihadismo mais radical, de maneira que todo o coração da África está incendiado. Há cinco frentes de jihadistas tentando penetrar na África Central, que é onde estão os minerais do continente: ouro, manganês, cobalto, cobre, coltan, petróleo.

O SÃO PAULO: - E no caso específico da República Centro-Africana como tem sido?

Dom Juan José Aguirre: - Quando chegaram esses grupos radicais islâmicos chamados Séléka, eles privilegiaram os muçulmanos, que representam somente 10% da população, e pisotearam todo o resto. Porém, houve uma reviravolta com a chegada de um novo presidente, e os não muçulmanos, com os grupos chamados de ‘anti-Balaka’, começaram a atacar os mulçumanos. Houve um choque frontal, que é a guerra que estamos vivendo atualmente.

O SÃO PAULO: - Há algum tipo de diálogo entre os cristãos e os muçulmanos não radicais?

Dom Juan José Aguirre: - Sim. Há uma plataforma de diálogo inter-religioso muito importante. O Cardeal Dieudonné Nzapalainga, de Bangui, a capital do país, tem um grupo de diálogo inter-religioso. Em Bangassou nós também temos. O presidente do grupo de diálogo inter-religioso no mês de janeiro foi atacado por muçulmanos que quase o mataram. A última facada entrou pelo pescoço e passou a meio centímetro da jugular. Recentemente, na Caritas diocesana, ameaçaram outro padre e a mim também.

O SÃO PAULO: - E qual é a postura dos cristãos diante dessas situações?

Dom Juan José Aguirre: - Muitos cristãos fogem, sobretudo quando têm crianças e mulheres. Eles têm fugido para o Congo, que faz fronteira com a República Centro-Africana. As pessoas passam o rio e estão a salvo. Muitos fogem, mas muitos outros ficam. Vivemos há cinco anos com esse medo que muitas vezes se transforma em choque pós-traumático, também pelos tiros, pela violência, pela morte de mulheres, pela morte de crianças. Por tanto sangue derramado, muitas vezes os cristãos fogem de Bangassou.

O SÃO PAULO: - E de onde vem a força para os que decidem ficar?

Dom Juan José Aguirre: - Quando há muita violência, muitos organismos internacionais vão embora. Somente quem fica é a Igreja Católica. A Igreja Católica é a última que apaga a luz. Então, essa força vem de Deus, sem dúvida alguma. Eu reúno alguns padres, todas as noites, fazemos uma oração de esperança e de força, olhamos para Cristo crucificado, para o Cristo no calvário, e sabemos que existe a ressurreição, e daí encontramos força. Muitas vezes o coração grita, a descarga de adrenalina é constante, e isso deixa o coração sempre agitado. Eu já tive três infartos.

O SÃO PAULO: - E o governo tem feito algo pela população?

Dom Juan José Aguirre: - O governo está ausente e não controla nem 80% do país. Chamam o presidente de prefeito da capital, porque ele não sai de Bangui enquanto todo o resto do país está controlado por um grupo de 14 senhores da guerra, todos sélékas, mas que não se entendem. Contra eles, nascem os grupos ‘anti-Balakas’, que até começam defendendo a população civil, por dois dias, mas já no terceiro se tornam criminosos piores que os outros. Eles matam pessoas, retiram as tripas, profanam cadáveres. São jovens criminosos com uma perda de sentido comum de humanidade enorme.

O SÃO PAULO - E por que isso acontece?

Dom Juan José Aguirre: - Por que não há governo, não há exército, não há administração. É, como dizem alguns, uma selva. Então, quando não há qualquer controle, sempre pode haver mais barbaridade e a mais completa impunidade, além de muita corrupção. Nas partes do país não controladas pelo governo estão os soldados da ONU, aproximadamente 12 mil, mas a maior parte é de nacionalidade marroquina, que são mulçumanos, e, assim, muitas vezes, agem como cúmplices de outros mulçumanos. Então, é triste ver como na República Centro-Africana muitos soldados da paz são odiados pelo povo.

O SÃO PAULO: - O mundo está atento ao que ocorre na República Centro-Africana?

Dom Juan José Aguirre: - Não, absolutamente não. O mundo olha de lado. Não convém socorrer os países do coração da África, porque ali estão os minerais que podem ser explorados de maneira gratuita e que servem muito bem às companhias multinacionais norte-americanas, inglesas, espanholas, da União Europeia, do continente asiático, do Golfo. Lá eles podem roubar ouro, a China, por exemplo, rouba ouro na República Centro-Africana. Rouba o cobalto, que é a matéria-prima para baterias. A Rússia chegou à República Centro-Africana no começo deste ano dizendo que vai formar soldados centro-africanos, mas na verdade está buscando o cobalto. Sem falar no coltan, e o seu componente o tântalo, um supercondutor que é usado em aparatos bélicos, como drones e mísseis, por exemplo. Hoje quem tem o controle do coltan tem o controle das guerras. E 95% do coltan do mundo, está na República Democrática do Congo. Então, colocar foco sobre certos países da África não interessa aos Estados Unidos, à China ou ao Japão. Para eles, é melhor que sejam lugares esquecidos para que sigam roubando.

O SÃO PAULO: - O que o senhor veio ao Brasil para falar aos bispos na Assembleia Geral da CNBB. Qual a motivação para essa vinda?

Dom Juan José Aguirre: - A Igreja é universal. Todos os quatro mil bispos do mundo têm o mesmo solidéu. Então, todos devem conhecer a realidade em que vivem nossos irmãos. Alguns bispos brasileiros até conhecem a situação na República Centro-Africana, pois são combonianos e eu já lhes falei sobre. Vivemos em uma aldeia global, de modo que os problemas de um continente interferem no outro. O problema do radicalismo islâmico toca a todos, não se pode deixar de pensar nele. Outro ponto é que acreditamos que até 2050 a África será o continente com a maior população do mundo, porque tem muitos jovens e lá existem 53 países com muita população. Então, todo mundo precisa saber o que se passa nesse continente. Além disso, a África tem uma igreja tremendamente viva, que tem bebido um pouco das fontes das comunidades eclesiais de base do Brasil e que estamos tentando imitar na República Centro-Africana. A África é um continente onde a Igreja será muito forte nas próximas décadas, forte no sentido de igrejas muito evangelizadoras. Hoje a África é uma terra de fronteira, como nos tem dito o Papa Francisco. Portanto, convém a toda a Igreja Católica saber o que há nesse continente.

O SÃO PAULO: - Por fim, gostaria de deixar uma mensagem aos brasileiros?

Dom Juan José Aguirre: - Sim, deixo uma mensagem a todos: Deus não quer que olhemos para o próprio umbigo. Deus quer que levantemos o olhar e vejamos nossos irmãos cara a cara. Deus quer que sejamos como o Bom Samaritano, que quando desce do seu cavalo para socorrer o homem que estava caído, não pergunta a ele sobre qual era sua religião, se é homem, se é mulher, se é negro, se é branco, se é rico, se é pobre. Ele simplesmente pega o melhor dele, que é seu coração, e oferece a essa pessoa que estava no solo. Que nós sejamos capazes ter um olhar de fé, um olhar de amor aos cristãos de todo o mundo.

Luciney Martins / O São Paulo

Foto: Luciney Martins / O São Paulo