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A história perdida da arquitetura brasileira dos retornados à África

Fotógrafo foi ao Benim e à Nigéria buscar construções feitas por escravos que voltaram ao seu continente de origem.

01/06/2018 17:39:00


Digite “Porto Novo”, capital do Benim, no Google, e a primeira imagem que aparecerá é a da principal mesquita da cidade. Será fácil notar, contudo, que na construção faltam elementos básicos de um templo muçulmano. Por exemplo, no lugar de uma única torre, o minarete, de onde são anunciadas as cinco orações diárias, há duas torres emparelhando um frontispício triangular. É a Grande Mesquita do Porto Novo, mas mais parece uma igreja colonial do bairro histórico do Pelourinho, em Salvador, na Bahia. E não é um acaso. A construção é obra dos retornados, ex-escravos que, a partir do começo do século XIX, fizeram o caminho inverso do Brasil para a África.

É essa história da arquitetura brasileira na África ocidental, especialmente no Benim e Nigéria, que o fotógrafo Tatewaki Nio foi buscar depois de vencer a Bolsa de Fotografia Zum, do Instituto Moreira Salles, em 2017 – e que atualmente tem uma nova edição com inscrições abertas até 29 de junho. A partir de 1835, com a expulsão de centenas de escravos do Brasil depois da revolta dos malês, em Salvador, estima-se que cerca de sete mil indivíduos retornaram à África por diferentes motivos. Tanto Benim, quanto Nigéria; são os países que mais receberam retornados, os responsáveis pela construção não apenas da mesquita de Porto Novo, mas de muitos outros edifícios com características brasileiras.

O fotógrafo japonês, que vive no Brasil há vinte anos, interessou-se de imediato pela história que conheceu através de uma série de fotografias de Pierre Verger, que ilustra o livro Da Senzala ao Sobrado: Arquitetura Brasileira na Nigéria e na República Popular do Benim, de Marianno Carneiro da Cunha. Com as imagens em mãos e com poucas referências geográficas, Nio partiu para a Nigéria em busca das casas retratadas. Encontrou muitas delas ainda em pé e arrepiou-se ao vê-las ao vivo, em cores. Para ele, até mais impressionante do que essa busca, foi ver outras inúmeras construções que compõem verdadeiras cidades brasileiras no interior dos dois países, em cidades como Ibadan, Ilê Ife, Abeokuta e Osogbo. “Não tenho como provar que foram construídas por retornados, mas com certeza sofreram influências”, diz.

A história de Nio, um capítulo à parte, explica muito de seu interesse pelos retornados em seu projeto que batizou de Na Espiral do Atlântico Sul: o fotografo é filho de imigrantes que vieram ao Brasil, mas acabaram eles próprios retornando ao Japão antes de seu nascimento. O país, contudo, nunca saiu de sua casa. Estava presente nas conversas e também na vitrola que tocava Gal, Caê e Roberto Carlos. Como se não bastasse, aos 11 anos se mudou com a família para a Tanzânia, onde viveu por dois anos. África e Brasil habitam seu imaginário desde sempre e as construções brasileiras, perdidas em continente africano, são, assim, a conexão de uma história da qual participa como um espectador privilegiado.

Logo na chegada ao Brasil, Nio fixou-se em Salvador, onde diz ter encontrado um país ainda parecido com as clássicas fotografias de Verger, que criou imagens icônicas do povo e das religiões afro-brasileiras. Ao se mudar para São Paulo, contudo, voltou seus olhos para a cidade e seus prédios, a fim de tentar entender a identidade da capital paulista. Impressionou-o, por exemplo, o processo de demolição do edifício São Vito, um decadente gigante de concreto que, conhecido por Treme-Treme, ficava bem ao lado do Mercado Municipal. Desde essa época, seu trabalho esteve marcado pela arquitetura e urbanismo. Encontrar as imagens das casas brasileiras feitas por Verger, um especialista em retratar pessoas, foi mais um incentivo para o projeto.

Além do trabalho de detetive do passado, Nio acrescentou mais duas séries de imagens a sua viagem ao Benim e Nigéria. Uma chamada “Megacidades” retrata o crescimento desenfreado de Lagos, maior cidade nigeriana que multiplica sua população ano após ano, lembrando São Paulo em muitos de seus cenários de expansão nada planejada. A outra, “Estou daqui, sou daqui” é o encontro afetivo através de fotografias entre imigrantes nigerianos que vivem na capital paulista com seus familiares. Nio retratou algumas dessas pessoas em São Paulo e levou reproduções em tamanho real para a Nigéria, onde produziu fotos das famílias ao lado dos imigrados.

Agora, com o projeto vencedor da bolsa do IMS praticamente finalizado, o fotografo pretende levar o trabalho em frente. Quer, através de suas imagens, construir conexões passadas e atuais cada vez mais estreitas entre Brasil e África. Enquanto vai expondo as fotografias em diferentes museus, imagina um formato final com um livro que tenha a contribuição de textos de pesquisadores sobre a questão dos retornados e da arquitetura brasileira na África Ocidental. Para ele, a imigração sempre foi uma realidade no mundo, que, agora e daqui para frente, será cada vez mais intensa. Entendê-la, diz, é fundamental para entender o mundo. Por fim, Nio, entre Lagos, São Paulo e Tóquio, qual cidade é mais interessante? “Não saberia dizer. O que posso dizer é que meu olhar e meu projeto como fotógrafo é brasileiro”.

 

 

André de Oliveira / El País

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