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Projeto Missão Ushuaia aproxima venezuelanos e brasileiros por meio da troca de cartas

No contexto da crise política e econômica que o país enfrenta, em agosto de 2017, a Venezuela foi suspensa do Mercosul justamente por não cumprir os compromissos democráticos garantidos no Protocolo de Ushuaia.

06/07/2018 11:19:00


“A Igreja sempre me inspirou e provocou a usar o cinema documentário como ferramenta de transformação social e defesa da vida. Eu comecei a produzir vídeos na escola, mas sempre estimulado por aquilo que ouvia nas bases da Igreja Católica”. Esta declaração é do documentarista baiano Dado Galvão que atualmente lidera, junto com o fotografo paraibano Arlen Cezar, o projeto Missão Ushuaia – Venezuela.

Um dos objetivos desse projeto independente é promover ações de cunho cultural e humanitário, por meio do cinema documentário, de apoio aos venezuelanos que estão nos abrigos, casas de acolhida e nas ruas de Boa Vista e Pacaraima, municípios de Roraima com maior concentração de imigrantes e refugiados, que desde 2016 chegam a maior número ao Brasil, fugindo da crise econômica e política na Venezuela.

O projeto consiste em promover interações por meio de cartas e outras intervenções, entre os imigrantes e refugiados venezuelanos com os brasileiros e com parlamentares do Brasil e da América do Sul. Todo o processo, que é compreendido como uma missão humanitária por seus realizadores, tem ainda o caráter cultural, já que tudo está sendo documentado em vídeos e fotografias que vão ser a base para a produção do documentário de mesmo nome, Missão Ushuaia, Venezuela.

PROTOCOLO DE USHUAIA

Ushuaia é a cidade argentina onde foi assinado, em 1998, o Protocolo de Ushuaia,  documento que regista os compromissos dos países que integram o Mercosul, como explica o documentarista baiano: “Para ingressar no Mercosul a Venezuela se comprometeu em respeitar esse Protocolo e, por isso, decidimos dar este nome ao nosso documentário”.

No contexto da crise política e econômica que o país enfrenta, em agosto de 2017, a Venezuela foi suspensa do Mercosul justamente por não cumprir os compromissos democráticos garantidos no Protocolo de Ushuaia. “A suspensão da Venezuela é contra o governo venezuelano, não contra o povo, um grande sinal disso é o fato de que os países do Mercosul decidiram, por exemplo, manter o direito dos cidadãos venezuelanos circularem pela Região apenas com o documento de identidade, ou seja, do ponto de vista da questão migratória não houve nenhuma suspensão”, destaca Galvão.

Foi neste contexto que nasceu o projeto Missão Ushuaia, Venezuela, que desde 2015 realiza ações com imigrantes venezuelanos e com a população de Jequié (BA), cidade do sudoeste baiano. Uma das primeiras ações foi motivar os alunos da Escola Estadual Luís Eduardo Magalhães a escreverem cartas de apoio direcionadas aos imigrantes e refugiados venezuelanos que estão em Roraima. As cartas foram entregues em junho deste ano. Esta iniciativa marcou a venezuelana Carolina Arenas, que está, há alguns meses, em Boa Vista e disse que ler a mensagem enviada por um dos estudantes da rede pública da Bahia renovou a sua esperança por dias melhores. “Até me senti mais forte diante do que estamos passando, longe de nossas famílias que estão na Venezuela há um vazio em nós”, desabafou Carolina.

CARTAS MOBILIZADORAS

Para promover a entrega das cartas, na fronteira Brasil-Venezuela, entre os mastros das bandeiras que delimitam os territórios brasileiro e venezuelano, foi colocado um varal de cartas e realizada a primeira atividade de entrega das mesmas, na cidade de Pacaraima, porta de entrada no Brasil para a maioria dos venezuelanos em situação de migração. Ao visitarem Roraima, os idealizadores do projeto também incentivaram imigrantes e refugiados venezuelanos a escreverem cartas para os parlamentares dos países que compõem o Mercosul.

No último dia 3 de junho, na 19ª reunião Ordinária da Comissão de Educação, Cultura, Ciências, Tecnologia e Desportes do Parlamento do Mercosul (Parlasul), os idealizadores da Missão Ushuaia Venezuela, tiveram a confirmação de que vão ser recebidos em setembro, no parlamento, em Montevidéu, no Uruguai. “Nós vamos levar as cartas que recolhemos em Roraima dos imigrantes e refugiados e vamos também expor as fotografias da entrega das cartas dos estudantes baianos aos imigrantes venezuelanos. Vamos levar ainda a bandeira do Mercosul que é uma bandeira abaixo-assinado”, explica Galvão. Quando foi enviada em 2015 para a Venezuela, a bandeira do Mercosul foi conduzida por várias cidades do país com a ajuda do jovem escritor Carlos Javier Arencibia, autor do livro Testemunhos da repressão.

INICIATIVAS SOLIDÁRIAS

As ações do projeto Missão Ushuaia Venezuela, se unem às tantas outras como mesmo objetivo, ou seja, por iniciativas independentes, seja por organizações e grupos que, diante do crescente número de imigrantes venezuelanos no Brasil, estão se mobilizando em ações solidárias. Como resposta à crise humanitária na Venezuela, a Igreja no Brasil tem se mobilizado com campanhas e ações permanentes, especialmente em Roraima e no Amazonas.

Em junho a Cáritas Brasileira lançou o Apelo de Emergência que visa arrecadar recursos financeiros entre as entidades membro da Confederação Cáritas no mundo e no Brasil para mobilizar as ações emergenciais em Roraima. Outra iniciativa da Cáritas Brasileira é o projeto “Compartilhe a viagem”. Esta iniciativa consiste em reunir histórias de migrantes e refugiados que vivem no Brasil. As seis malas que vão recolher essas histórias já estão circulando, em diferentes regiões brasileiras, e até 2019 o projeto será apresentado em uma publicação que vai marcar também o ciclo de dois anos da campanha mundial da Cáritas Internacional, Compartilhe a Viagem.

Por Jucelene Rocha – Rede de Comunicadores da Cáritas Brasileira

 

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