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O corpo na Arte

Arthur e Shirlei encontraram na dança e no teatro espaços de expressão da própria identidade.

10/07/2018 14:53:00


A dança, o teatro e as demais manifestações artísticas, sobretudo aquelas que evidenciam o corpo, são, na maioria das vezes, consideradas inapropriadas para pessoas com alguma deficiência que, aparentemente, as impede de expressarem-se artisticamente. Na maioria das vezes, a atividade é observada mais do ponto de vista terapêutico do que da capacidade artística da pessoa com deficiência.

A dificuldade é vivenciada por muitos artistas, como, por exemplo, Arthur Baldin, 24, formado em Comunicação das Artes do Corpo pela PUC-SP e mestrando pela mesma Universidade. Arthur está realizando uma pesquisa sobre o corpo debilitado no espaço cênico e prepara um monólogo na qual conta e ri da própria história.

Arthur nasceu com anóxia neonatal. Durante um trabalho de parto complicado e demorado, passou por insuficiência respiratória e, além de permanecer na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), teve convulsões no pós-parto. “Uma amiga da minha mãe sugeriu que ela me batizasse ainda lá na UTI e assim ela fez. Depois disso, eu comecei a me recuperar e no dia seguinte recebi alta do hospital”, contou Arthur, que, como sequelas, ficou com dificuldades na fala e alguns movimentos descoordenados no corpo.

Shirlei Caetano Pinto Araújo, 65, é dançarina e artista plástica. Natural de Londrina (PR), ela nasceu com a rara síndrome de Usher, doença genética que leva à perda parcial ou completa da visão e da audição. Ela escuta com a ajuda de aparelhos e tem perda total de olfato. Shirlei foi a única que teve consequências entre seis irmãos, e a síndrome se desenvolveu pelo fato de os pais de Shirlei serem primos.

“Meus pais não perceberam que eu escutava mal e só depois de muitos anos percebi que eu era uma pessoa com deficiência e tinha alguns direitos adquiridos. Trabalhei na banca de jornal do meu pai até me casar e tive com meu esposo, um filho”, contou à reportagem do O São Paulo. 

Os médicos fizeram um procedimento cirúrgico que impediu que Shirlei tivesse outros filhos, pois, segundo eles, a gestação acelera sintomas da síndrome. “Eles fizeram a cirurgia praticamente sem o meu consentimento. Meu esposo e eu gostaríamos de ter outros filhos”, afirmou Shirlei, que é viúva e mora com o filho, Willians Pinto Araújo, 29. Há cerca de 10 anos, após recuperar-se de um câncer de mama, ela perdeu também a visão e hoje só consegue diferenciar claros e escuros.

A DANÇA

Shirlei foi, por si mesma, descobrindo como tirar o máximo da sua condição. Quando frequentou o Hospital das Clínicas, foi encaminhada para instituições especializadas, em 2002. Desde então, ela realiza atividades de padaria, esculturas em argila e dança.

 

“Eu sou católica e faço muitas esculturas marianas, de Nossa Senhora de Fátima, Nossa Senhora de Guadalupe e Auxiliadora, por exemplo. Gosto muito dos trabalhos manuais”, explicou Shirlei, cujas esculturas são vendidas na sede da própria instituição. A dança contemporânea ela começou há 13 anos.  Hoje, participa de um grupo de dança inclusiva que faz apresentações em congressos, durante a Virada Cultural Inclusiva e em outros eventos.

“Por meio da dança, podemos criar uma ressonância, utilizando a Arte como instrumento de diálogo entre os indivíduos com e sem deficiência, possibilitando a expressão entre corpos diferentes”, afirmou em seu blog Daniella Forchetti, doutoranda pelo Instituto das Artes na Unicamp e especialista em Linguagens das Artes pela USP. Daniella é professora de Shirlei e a acompanha nos projetos e apresentações.

Magda Amábile Biazus Carpeggiani Bellini defendeu, em 2007, a tese de doutorado com o tema: “A comunicação do corpo a partir da não visualidade: um estudo teórico-prático”, na PUC-SP. No texto, ela parte da hipótese de que indivíduos portadores de deficiência visual congênita podem ampliar suas estratégias de comunicação corporal por meio de processos de ressignificação da imagem interna do corpo por intermédio do movimento. “Para esses indivíduos, um nível elementar de controle, de posse, de orientação e operação de seu corpo torna-se respectivamente restrito, mas é possível intervir nesse processo por meio de treinamentos específicos. A constante e variada estimulação proprioceptiva e do sistema vestibular (referente ao equilíbrio) pode compensar a falta da visão”, afirmou Magda.

O TEATRO

“Quando falei para os meus pais que queria estudar teatro, eles logo de cara me apoiaram, o que foi uma surpresa para mim. E confesso que comecei a faculdade sem ter dimensão do quanto ela seria importante na minha trajetória. Tive ótimos professores e pessoas que acreditaram muito em mim”, disse Arthur.

O jovem ator tentava participar de companhias de teatro tradicionais, mas não conseguia o espaço que queria nem papeis relevantes. Também não conseguia interpretar personagens específicos para pessoas com deficiência. “Durante muito tempo, vivi a crise do ‘eu só vou preencher cotas na minha vida’ e isso foi muito difícil. Mas consegui superar isso”, contou Arthur.

Outras pessoas como Wellington Nogueira, fundador e coordenador do Doutores da Alegria no Brasil e vizinho de Arthur, também o apoiaram nesse processo. “Quando soube que o Wellington era meu vizinho, fui me apresentar para ele. E depois, um dia, ele me viu na rua e disse: ‘Arthur, você está indo à missa?’. Eu disse que não, que iria com um grupo para Aparecida (SP) e ele me fez um pedido bem inusitado”, recordou Arthur.

“Então, Wellington me disse que precisava que eu levasse dois narizes de palhaço para serem abençoados.  ‘Eu quero dar de presente para um casal que acabou de se casar’. Eu disse que levaria, mas que ele providenciasse três narizes, porque eu também queria o meu”, continuou o ator. Desde então, a amizade entre os dois cresceu.

O ENCONTRO COM UM PALHAÇO

Arthur dá aulas de teatro em duas escolas e, além do mestrado, está trabalhando em seu primeiro espetáculo, dirigido por Nando Bolognesi. Nando, 45, adquiriu esclerose múltipla, uma doença degenerativa, progressiva, incurável e com potencial incapacitante, aos 25 anos de idade.

Formou-se em Economia na USP, História na PUC-SP, casou-se, adotou um filho e resolveu dar uma virada na própria vida ao ingressar na Escola de Arte Dramática EAD-ECA-USP. Transformou-se, então, no palhaço Comendador Nelson. Atuou por quatro anos nos Doutores da Alegria; fez parte, por dez anos, do elenco de palhaços-improvisadores do consagrado espetáculo “Jogando no Quintal” e criou o pioneiro projeto “Fantásticos Frenéticos - palhaços em hospitais psiquiátricos”, no qual atuou por três anos.

As informações sobre Nando estão disponíveis no seu site de divulgação, que além da sua biografia, apresenta seus trabalhos cênicos e o livro “Um palhaço na boca do vulcão”, publicado em 2014, pela editora Grua .

“Nando partiu para um ano na Europa em 1990. Tinha 21 anos. Em Londres, trabalhava para um indiano a quem admirava a sabedoria e, nos fins de semana, ia jogar futebol na quadra de uma escola. Jogou bem pior do que costumava. Já na Holanda, foi viajar de bicicleta e a perna direita não firmava. A solução foi amarrar o pé ao pedal, o que resultou em repetidos tombos. Passados alguns meses, já decidido a se tornar ator, fazia um estágio na Fiat, em Turim, quando percebeu ter perdido a força em uma das mãos. É diagnosticado com Esclerose Múltipla. No livro, as lembranças da infância se mesclam com o cotidiano do adulto. A nova realidade que se impõe, a perda acentuada da coordenação e força das pernas que o obriga a usar uma bengala, o fantasma da incontinência urinária decorrente da doença, é tratada de maneira serena e sóbria, sem perder a graça e a leveza no texto”.

O texto acima é a sinopse do livro de Nando, ator e diretor de teatro, que aos sábados ensaia, no Ateliê de Adriano Bechara, o espetáculo que está sendo gestado a partir da vida de Arthur. “São histórias sobre a minha vida. Por exemplo, eu adoro café, mas sou muito descoordenado. E sempre deixo cair o café, na roupa, nos papéis, em tudo”, disse, sorrindo, Arthur.

Em outro momento da peça, por exemplo, ele conta um fato que aconteceu quando entrou, apressadamente, no ônibus. “Subi no ônibus eufórico, falando alto e rápido e todos ficaram me olhando assustados. Então, o cobrador me olhou e perguntou: ‘Calma, o que você quer?’ E eu disse: ‘Queria somente pedir desculpas por ter entrado pela parte de trás do ônibus e passar meu bilhete único’. Então, ele riu e respondeu: ‘Menos mal, a gente pensou que você ia nos assaltar’. E todos caímos na risada.”

No Brasil, há cerca de 6,5 milhões de deficientes visuais e quase 10 milhões de deficientes auditivos.

EM MOVIMENTO

Shirlei está estudando para concluir o Ensino Médio e pretende começar a faculdade. Para estudar, ela escuta a matéria com áudio-aulas e responde às provas oralmente em encontros periódicos. “Faço acompanhamento terapêutico com um psiquiatra que também é deficiente visual e gostaria de me formar para ajudar outras pessoas”, disse. Ela também é vendedora de cosméticos desde a juventude.

“Porém, não sei se vou conseguir continuar estudando, pois mesmo com a aposentadoria e a ajuda do meu filho, que é formado em Marketing, tenho dificuldades para manter tudo”, desabafou.

Shirlei anda sozinha pela cidade e usa o transporte público para chegar a todos os lugares que frequenta. Moradora da zona Norte de São Paulo, ela participa de instituições que estão localizadas no Ipiranga e na Vila Mariana, na zona Sul, por exemplo.

“No ano passado, convidei vários dos meus amigos que também têm deficiência para virem comemorar meu aniversário. Fiz um bolo e eles também trouxeram algo para partilhar. Pedi ao meu filho para colocar músicas dos anos 1960 e todos começamos a dançar. Foi uma festa”, contou Shirlei. Além disso, ela participa das reuniões na Câmara dos Deputados para inteirar-se e colaborar sobre o tema da deficiência e da questão dos direitos das pessoas com deficiência e, sempre que convidada, participa dos eventos da Pastoral das Pessoas com Deficiência da Arquidiocese de São Paulo.

“Eu não consigo ficar parada. Não gosto de televisão. Prefiro ouvir músicas e palestras. Tudo que me ajude a ser melhor. Sou uma pessoa muito sensível e gosto muito de viajar. Se eu pudesse, viajaria de ponta a ponta, para conhecer todo o Brasil. Já pensou que maravilha?”, perguntou Shirlei, que no dia da entrevista fez um bolo de chocolate para oferecer à reportagem.

PESQUISA

Após ter estudado Ariano Suassuna durante a graduação, Arthur colocou-se diante do desafio de escrever sobre um tema que ele vive em primeira pessoa em sua dissertação de mestrado, com a orientação de Helena Katz. “A minha área de pesquisa é a cota para pessoas com deficiência e o corpo debilitado no espaço cênico, mas reconheço que existem outras variáveis, e diferentes âmbitos em que as discussões são igualmente importantíssimas, como a educação e a saúde”, explicou.

“Estamos num País de extrema intolerância e de pessoas que abraçam ideologias e fazem manifestações extremamente agressivas. Acho que as pessoas têm de começar a deixar suas ideologias e pensar nas reais necessidades da sociedade. É importante que o outro seja visto como seu adversário e não como seu rival. Isso é algo muito difícil”, continuou o pesquisador.

“‘Você não vai cair no vitimismo, você vai rir de si mesmo’, disse meu diretor de teatro, assim que começamos a pensar o espetáculo. Eu acredito muito nisso, pois nós somos iguais e capazes como qualquer outra pessoa. Somos diferentes, mas somos iguais. Colégios e centros culturais e as empresas mais humanistas do mundo são tão vítimas da lei quanto eu, e todas parecem estar buscando novos caminhos. Por isso, eu sou a favor da cota e de uma lei que garanta meus direitos. Porém, se daqui a 50 anos as cotas ainda forem necessárias, teremos um problema. Afinal, eu não quero competir com um cego ou uma pessoa com síndrome de Down. Quero competir com o cego, o galã e a atriz de novela”, concluiu Arthur.

QUAL O TERMO CORRETO?

Na Convenção Internacional para Proteção e Promoção dos Direitos e Dignidade das Pessoas com Deficiência, ficou decidido que o termo correto a ser utilizado é “pessoas com deficiência”.

No total, foram sete os motivos que levaram os movimentos a terem chegado a expressão “pessoas com deficiência”. Entre eles: não esconder ou camuflar a deficiência, mostrar com dignidade a realidade e valorizar as diferenças e necessidades decorrentes da deficiência.

Outro princípio utilizado para embasar a escolha é defender a igualdade entre as pessoas com deficiência e as demais em termos de direitos e dignidade, o que exige a equiparação de oportunidades atendendo às diferenças individuais.

Nayá Fernandes/O São Paulo

Informações de: www.tendenciainclusiva.com.br

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