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Município de Barbosa Ferraz sedia 31ª Romaria da Terra do Paraná

O Paraná é o quarto Estado com mais casos de violência contra o pequeno agricultor. Em Barbosa Ferraz, há mais de 12 anos, 66 famílias lutam pela posse da terra.

21/08/2018 10:15:00


Milhares de pessoas se reuniram no município de Barbosa Ferraz, no último dia 19 de agosto para a 31ª edição da Romaria da Terra do Paraná.

O encontro que foi sediado pela paróquia Nossa Senhora das Graças, trouxe como tema: “Com direito a Justiça, a paz supera a violência no campo”.

Romeiros, trabalhadores sem-terra, integrantes de pastorais e movimentos religiosos estivem presentes no evento que, ao longo do dia, debateu os conflitos agrários que voltaram a se desencadear no Brasil nos últimos tempos, com destaque para o Paraná.

PINHÃO 2017

O mês de dezembro, geralmente, é um mês de muitas alegrias, de espera, de partilha e de perdão. Mas para vinte e duas famílias da comunidade de Alecrim, no município de Pinhão, o primeiro dia do mês do Natal representou um verdadeiro inferno, um terror desses que quando chegam através dos pesadelos, a ânsia por acordar é o único sentimento a invadir o corpo e a alma. No dia 01 de dezembro de 2017, máquinas gigantes, vigiadas por policiais fortemente armados, além de seguranças particulares, entraram comunidade adentro, destruindo casas, posto de saúde, barracões, igreja, histórias, famílias, vidas. Era o cumprimento de um mandado de reintegração de posse emitido pela justiça federal em favor dos latifundiários que dominam a maior parte do municpípio.

A localidade de Alecrim fica a vinte e cinco quilômetros da cidade de Pinhão. Algumas famílias que foram expulsas de suas casas pelas autoridades através de mandado de reintegração de posse, viviam no local há mais trinta anos.

Conforme informações da justiça, na ocasião, a massa falida Zattar (empresa do ramo madeireiro que acumula uma das maiores dívidas em impostos no país), possui documentos da área que lhe garante a posse da terra. Durante a ação policial que destruiu as casas e benfeitorias na comunidade, muitos moradores sequer tiveram tempo de retirar seus pertence e tudo foi demolido, estraçalhado.

A tensão em todo o município só cresceu desde a ação da justiça que expulsou os moradores de Alecrim. De acordo com dados da prefeitura local, ao todo, mais de três mil famílias que vivem há várias décadas em terrenos posseiros no município e também em municípios vizinhos, podem ser alvos de despejo por ações da mesma família (Zattar). São mais de sete mil pessoas, que trabalham como pequenos produtores rurais e que estão em áreas que a massa falida alega na justiça ser de sua propriedade.

Uma semana antes da reintegração de posse, uma audiência pública na cidade de Pinhão discutia o assunto, mas não se chegou a nenhum acordo que pudesse impedir a ordem judicial.

Manifestações promovidas pelos integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), posseiros, e moradores das regiões de faxinal no município de Pinhão tentaram sensibilizar as autoridades com uma passeata, mas não houve meios de impedir as ações da justiça.

Depois do conflito em Alecrim, houve uma trégua nas reintegrações de posse, mas ainda é grande a tensão de muitos moradores daquela região.

BARBOSA FERRAZ

O bispo da diocese de Campo Mourão, Dom Bruno Vesari disse que a Romaria da Terra é uma celebração e continuidade da Campanha da Fraternidade para a superação da violência. “E nesta oportunidade nós vamos refletir sobre a superação da violência no campo. Os agricultores, os assentados e acampados ainda sofrem com esta situação”, falou o bispo em uma entrevista que concedeu ao jornal Tribuna do Interior, um dia antes do evento.

Dom Bruno também lembrou que o Paraná é o quarto Estado com mais casos de violência contra o pequeno agricultor.

O município de Babosa Ferraz não foi escolhido por acaso para receber a 31ª Romaria da Terra. Na cidade, há mais de 12 anos, os acampamentos Irmã Dorothy (Fazenda São Paulo) e Nossa Senhora do Carmo (Fazenda Junqueira) estão em uma luta que envolve 66 famílias ocupando uma área de terra de 500 hectares.

Nestes 30 anos de Romaria da Terra no Paraná, o evento já foi celebrado em cidades, acampamentos, junto às comunidades nativas e em tantos lugares, sempre resultando em reflexões e abordagens sobre temas atuais. Nesta edição os organizadores e participantes procuraram refletir sobre o que vem acontecendo com os trabalhadores do campo não só no Paraná, mas em todo o país.

A 31ª Romaria da Terra faz parte do Calendário do Regional Sul 2 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e é promovida pela Comissão Pastoral da Terra (CPT). A Paróquia Nossa Senhora das Graças de Barbosa Ferraz faz parte da diocese de Campo Mourão e apoiou o evento, bem como forneceu infraestrutura para que o mesmo fosse realizado. O padre Dirceu Fumagalli, coordenador da CPT do Regional Sul 2 da CNBB, comentou que as romarias têm um sentido simbólico e ‘acham sua fonte na própria marcha da humanidade’. “Sempre houve lugares que despertaram fascínio sobre as pessoas e para os quais as pessoas foram e vão à busca de algo para suas vidas. As Romarias da Terra aconteceram na esteira do Concílio Vaticano II, que acabou com a ruptura entre povo, palavra e altar. As Romarias tradicionais essencialmente buscam o altar e o Santo, as Romarias da Terra introduziram a ‘Palavra’, a reflexão”, explicou.

Segundo ele, as Romarias da Terra têm um caráter ecumênico incorporando ritos e símbolos de outras religiões ao universo católico. “As Romarias da Terra valorizam o religioso, e não falham na sua contribuição profética. Nelas se busca mais que confortar o coração, se busca a transformação da sociedade, a construção do Reino de Deus. A romaria contribui para transformar a mística e a espiritualidade em gesto e compromisso concretos”, sublinhou.

Em entrevista à Rádio Cultura FM 94,3, emissora que pertence à diocese de Guarapuava, o arcebispo de Londrina, Dom Geremias Steinmetz, afirmou que o acesso e permanência dos agricultores na terra é um problema que está longe de ser resolvido no Brasil. Disse ainda que a Igreja Católica precisa seguir as orientações de sua Doutrina Social e “lançar luz” sobre a caminhada dos pequenos agricultores do país. “Temos muitos agricultores sem a documentação da terra, sem a formação para trabalhar no campo, portanto, a gente vê que a necessidade de organização continua muito presente”, enfatizou.

Para ele, a Doutrina Social da Igreja é a chave para que o povo possa se organizar, sempre à Luz do Evangelho. “A terra deve estar a serviço, para produzir, não pode ser objeto de especulação, essa é uma mensagem da Doutrina Social da Igreja”, grifou.

O financiamento das famílias é outra necessidade que deve ser suprida para promover paz e justiça no campo, conforme lembra Dom Geremias. “Muitas pessoas não conseguem produzir porque não têm como investir. O governo deveria pensar mais nisso, fazendo com que os agricultores possam ter cada vez mais tecnologia de produção”, interpelou. O arcebispo destacou, ainda, a importância do voto consciente e da participação dos católicos nas eleições. “Não podemos ficar desligados desse processo”, finalizou.

Com informações de Walter Pereira – Jornal Tribuna do Interior e Rádio Cultura FM de Guarapuava

Fotos: Tribuna do Interior/Rádio Cultura FM e paróquia Santo Antônio de Pádua em Rio Bonito do Iguaçu

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