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TEATRO: muito mais que entretenimento

No Brasil, comemora-se em 19 de setembro, o Dia Nacional do Teatro.

20/09/2018 17:50:00


Foto: “Peça João da Cruz”/Divulgação

Quem não se lembra da cena de “O Auto da Compadecida” em que João Grilo e Chicó chegam ao céu com outras pessoas e apelam à intercessão de Nossa Senhora para falar com Jesus? “O Auto da Compadecida” é um auto (peça de curta duração em forma de versos) escrito por Ariano Suassuna, em 1955.

Encenada pela primeira vez em 1956, em Recife (PE), o Auto ganhou as telas da televisão brasileira ao ser adaptado em uma minissérie em 1999, pela Rede Globo de Televisão. No ano seguinte, a produção foi editada e exibida nos cinemas.

Questões religiosas estão, constantemente, presentes em roteiros teatrais, e o uso dessa arte para ajudar as pessoas a compreender melhor a relação entre vida e fé ou conhecer a vida dos santos, por exemplo, são recorrentes em produções nacionais e internacionais.

O teatro é, desde seu início, na Grécia, ou mesmo antes disso, nas sociedades orientais, muito mais do que entretenimento: constitui-se numa arte que comunica dor e alegria, que reconta dramas, tragédias, comédias ou verdades de fé.

No Brasil, comemora-se em 19 de setembro, o Dia Nacional do Teatro. A data surgiu após a sanção presidencial da Lei 13.442/2017, que instituiu o “Dia Nacional do Teatro Acessível: Arte, Prazer e Direitos”. O comunicado foi publicado pela agência Senado em abril de 2017 e informa que o objetivo é ajudar a divulgar a cultura por meio de atividades cênicas que ofereçam práticas de acessibilidade física e comunicativa a pessoas com deficiência.

“A iniciativa surgiu após a campanha ‘Teatro Acessível: Arte, Prazer e Direitos’, idealizada e lançada pela organização não governamental ‘Escola de Gente – Comunicação em Inclusão’, em junho de 2011, e de uma audiência pública na Câmara dos Deputados, em maio de 2013, quando diversos especialistas discutiram o tema”, continua o texto.

O Dia Mundial do Teatro, por sua vez, é comemorado em 27 de março e foi criado em 1961, em Viena, na Áustria, durante o 9º Congresso do Instituto Internacional de Teatro, quando da inauguração do Teatro das Nações, em Paris, na França. Coincidentemente, o aniversário de Atenas, na Grécia, considerada por muitos o berço do teatro ocidental, também é comemorado em 27 de março, conforme explica o blog Teatro Plural, criado para divulgar notícias e informações sobre o teatro no Brasil.

TEATRO NA IDADE MÉDIA

Entre os séculos XI e XIII, era muito comum que dentro das igrejas houvesse a composição do coro enquanto os jogos aconteciam nos Adros (fora da igreja). Os jogos eram pequenas composições que tinham sempre uma moral da história e, na maior parte das vezes, eram inspirados na vida dos santos ou em relatos bíblicos, como o caso do “Jogo de São Nicolau” ou do “Jogo de Adão”.

O drama cristão surgiu a partir da necessidade de falar sobre a fé católica para as pessoas que não sabiam ler nem compreendiam os textos que eram lidos durante as celebrações, à época, totalmente em Latim. Só após o Concílio Vaticano II, na década de 1960, a missa começou a ser celebrada em língua vernácula, ou seja, em diferentes idiomas.

“A conversão de São Paulo”, “Santa Maria Madalena”, “São Jorge” e “São Nicolau” são peças que permanecem dentro dos cânones bíblicos e que eram constantemente representadas. A encenação da Paixão de Cristo e as peças sobre a Ressurreição de Jesus foram desenvolvidas por volta do século XIII. Já os ciclos completos, incluindo tanto as peças de Natal como as de Páscoa, atingiram seu ápice no século XV.

As informações foram publicadas no blog: “Pequena História do Teatro” e recordam, ainda, que, com o tempo, e ao longo dos séculos XV e XVI, o teatro começou a sair das dependências das igrejas e se misturar com contos e lendas populares. A partir de então, surgiram figuras como a do bufão, uma espécie de palhaço, ou dos mambembes, andarilhos que realizavam apresentações pelas ruas.

CONVITE À CONVERSÃO

Cláudio Santana Pimentel, em sua dissertação “Divinização do Humano e Humanização do Divino – Representações do imaginário religioso no teatro de Ariano Suassuna”, afirma que as peças de Suassuna trazem um convite à conversão. Ele diz que, “ao retirar a questão do mal dos estreitos limites das conveniências e opiniões humanas, e atribuir-lhe uma fundamentação transcendente, Suassuna faz de seu teatro um convite à reflexão e à conversão”.

“Uma mulher vestida de Sol”, por exemplo, é uma tentativa de Suassuna de recriar o romanceiro popular nordestino. “Salientei, na época, a semelhança existente entre a terra da Espanha e o sertão, o romanceiro ibérico e o nordestino. Tomei um romance popular do sertão e tratei-o dramaticamente, nos termos da minha poesia - ela também filha do romanceiro nordestino e neta do ibérico. Procurei conservar na minha peça o que há de eterno, de universal e de poético no nosso riquíssimo cancioneiro, onde há obras primas de poesia épica, especialmente na fase denominada do pastoreio”, afirmou o próprio Suassuna no texto de apresentação do livro no qual o texto foi publicado.

ARTE E TEATRO NO BRASIL DE HOJE

Rita Grillo é atriz, diretora, professora de interpretação e mestranda em Artes do Espetáculo na Universidade de Paris. Realizou em 2013 sua primeira direção, o espetáculo “Ninguém no Plural”, inspirado em contos de Mia Couto e, desde setembro de 2017, é professora na escola de formação de atores École du Jeu, em Paris.

Em entrevista ao jornal O São Paulo, Rita recordou que, nas origens do teatro brasileiro, estão alguns rituais indígenas e o trabalho de catequese dos jesuítas que, desde a chegada ao Brasil, utilizavam-se do teatro. Porém, ela recordou que o teatro ampliou seu alcance quando artistas europeus, fugidos da 2ª Guerra Mundial, começaram a trazer seus conhecimentos para o Brasil.

“‘Vestido de Noiva’, de Nelson Rodrigues, é um marco para o teatro brasileiro”, afirmou Rita, que falou sobre a formação de grupos de teatro importantes como o “Arena”, o “Opinião” e o “Oficina”. A professora salientou que é justamente agora, neste momento do País, que o teatro se mostra fundamental.

“É importante investir em Arte porque ela cumpre um papel social fundamental. É óbvio que numa escala de prioridades, comer é mais importante do que refletir sobre a sociedade, mas isso não significa que num processo de transformação social, a Arte não seja necessária, porque ela não é só entretenimento, é fundamental para o desenvolvimento”, disse Rita.

ATRIZ POR VOCAÇÃO  

Miriam Jardim, 31, é atriz do Grupo Gattu há 13 anos, premiada recentemente pelo Prêmio Aplauso Brasil de teatro, como melhor atriz coadjuvante no espetáculo “A Falecida”, de Nelson Rodrigues, com direção de Eloisa Vitz. Há 21 anos, Miriam participa da encenação da Paixão de Cristo com o Grupo Teatral Arte de Viver (GTAV).

“Comecei a fazer teatro na paróquia Nossa Senhora das Dores, quando o diretor Roberto Bueno me viu durante uma dança preparada para a celebração de Natal e convidou-me a integrar o grupo de teatro que ele estava montando”, contou Miriam.

Foi assim que nasceu o GTAV, que se inseria em diferentes atividades da paróquia, desde missas, cursos de preparação para o Batismo, Catequese, curso de noivos, até na TV Canção Nova, rádio 9 de Julho, apresentações na Fundação Casa e outros lugares em que eram convidados para se apresentarem.

“A encenação da Paixão de Cristo começou dentro da igreja, depois era apresentada atrás dela e hoje acontece em estacionamentos de hipermercados, atacadistas e shoppings centers. A peça ganhou as ruas, o público cresceu, e o bairro da Parada de Taipas também. Hoje, temos um público que ultrapassa 10 mil pessoas todos os anos”, afirmou Miriam, que contou ter descoberto sua vocação por meio da participação no Grupo.

A atriz disse que não saberia falar sobre sua vida sem o teatro. “Tenho 31 anos e foram 21 de encenações da Paixão de Cristo. Cada apresentação é única, faça chuva ou faça sol, o público está lá. Muitos em pé, em cima de muros, compartilhando cadeiras, idosos, crianças, pessoas com deficiência, pessoas de religiões diferentes, pessoas sem religião, todas juntas em silêncio, vivendo o mistério da fé conosco. Todos sabem o enredo e, mesmo assim, assistem todos os anos com a fé que move montanhas e faz a gente crer na humanidade”, continuou.

ENLACE – A LOJA DO OURIVES

Em 2012, realizou-se na Capital Paulista uma temporada da peça “Enlace: a Loja do Ourives”, adaptação da obra de Karol Józef Wojtyła, São João Paulo II, escrita quando ainda era Bispo em Cracóvia, na Polônia.

Antes da pré-estreia, em maio de 2012, a atriz Françoise Fourton, os atores Claudio Lins e Rafael Almeida e os produtores da peça visitaram o Centro de Eventos Padre Vitor Coelho de Almeida, em Aparecida (SP), durante a 50ª Assembleia Geral da CNBB. A notícia foi publicada no site da CNBB à época e recordou a motivação que levou Maria de Lourdes Muniz de Mello, idealizadora do projeto, a levá-lo adiante.

Maria de Lourdes disse que se interessou pela peça durante a visita do já Papa João Paulo II ao Brasil em 1980. “Foram muitos anos para se obter do Vaticano os direitos para encenar essa peça, e muitas pessoas me ajudaram. Agora esse sonho está sendo realizado”, afirmou.

SÃO JOÃO DA CRUZ

Inspirado nos escritos de São João da Cruz, poeta e místico espanhol do século XVI, o espetáculo “João da Cruz” foi apresentado em janeiro, na Casa das Rosas, em São Paulo. A montagem é um solo de Conrado Caputo, com dramaturgia e encenação de Helder Mariani.

A ação se passa durante o período em que Frei João da Cruz, canonizado pela Igreja Católica em 1726, foi preso pelos seus próprios confrades, numa cela minúscula do Convento de Toledo, na Espanha. O monólogo retrata a obra literária do Santo, com suas ideias radicais, expressas pela palavra escrita e por sua prática de vida. Ele também carrega as contradições existenciais da humanidade que, depois da Idade Moderna, tornar-se-ão cada vez maiores.

A proposta de Helder Mariani é discutir sobre o homem, o poeta e o místico. “Nosso propósito não é apresentar uma narrativa biográfica de cunho didático”, afirmou Helder, em texto publicado no site da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo.

A encenação de Mariani apresenta o ator solitário e revela os aspectos frágil e forte de todo ser humano. Com uma trilha sonora contemporânea que dialoga com a narrativa, valendo-se de poucos recursos cenográficos ou de iluminação, o ator se despoja em cena e abre espaço para a palavra. O espetáculo foi apresentado durante o 16° Curso de Atualização Teológica e Pastoral do Clero, em agosto. Informações para novas apresentações e montagens podem ser obtidas pelo telefone (11) 97283 - 2727.

NOMES DO TEATRO BRASILEIRO SÃO JOSÉ DE ANCHIETA

SÃO JOSÉ DE ANCHIETA

Considerado um grande manifestante da cultura medieval no Brasil, José de Anchieta chegou ao País em 1553. Seus autos tinham como objetivo a catequese dos povos indígenas e continham características tanto indígenas quanto religiosas. Além disso, sua poesia em verso medieval merece destaque, bem como a primeira gramática do Tupi-Guarani – uma das únicas escritas até hoje.

JOÃO CAETANO

Nascido no Rio de Janeiro, foi um grande ator do século XIX no País e, além de empresário e ensaiador, era autodidata na arte dramática. Seu trabalho é visto como grande referência na reforma do cenário teatral do País e suas ideias estão em seus dois livros: “Reflexões Dramáticas” (1837) e “Lições Dramáticas” (1862).

ARTUR AZEVEDO

Maranhense, Azevedo chegou ao Rio de Janeiro aos 18 anos (em 1873) e foi crítico teatral. Sua carreira nesse ramo começou com a tradução e a adaptação de peças teatrais francesas — foram cerca de 40 comédias que retratavam os costumes da sociedade. Participou da construção do Teatro Municipal do Rio de Janeiro e tornou-se o nome mais conhecido do cenário dramático nacional daquela época.

MACHADO DE ASSIS

Machado de Assis, autor de romances como “Dom Casmurro” e “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, teve importante participação no desenvolvimento da dramaturgia nacional. Ele traduziu diversas peças de teatro francesas e foi crítico atuante no Conservatório Dramático. Escreveu, também, poesias, contos, comédias e algumas peças de teatro.

Por Nayá Fernandes/Jornal O São Paulo com informações do blog:

www.macunaima.com.br