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Doença similar à paralisia infantil assusta os Estados Unidos

São quase 400 casos da doença com sintomas semelhantes ao da poliomielite, que foi praticamente erradicada em todo o mundo.

19/10/2018 14:47:00


Poliomielite é causada por um vírus que afeta a medula espinhal.

Faz tempo que o Brasil não tem um caso de poliomielite. Também chamada de paralisia infantil, apesar de atingir adultos também, a doença foi erradicada por vacinação na maior parte dos países, passando de 350 mil casos em 1988 para 606 em 2013, segundo a Organização Mundial da Saúde.

Nos EUA a pólio também foi erradicada, mas muitos pensaram que isso tinha mudado quando crianças saudáveis começaram a perder o controle muscular. Essas crianças foram diagnosticadas com mielite flácida aguda (MFA), uma enfermidade com sintomas muito semelhantes à poliomielite.

Somente este ano foram 62 casos em 22 Estados americanos. Desde 2014, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) investiga pelo menos 386 casos suspeitos de MFA.

Nas últimas ondas da doença, em 2014 e 2016, os cientistas apontaram um parente do poliovírus, chamado enterovírus D68 (EV-D68), como um possível culpado. Mas as evidências ainda não são conclusivas, e não está claro por que o vírus só paralisa uma pequena minoria de crianças que infecta.

O MFA é “muito raro, mas é bem devastador”, diz Priya Duggal, epidemiologista da Escola de Saúde Pública Johns Hopkins em Maryland, que estuda se alguns pacientes podem ter uma vulnerabilidade genética ao vírus. “E parece que é cíclico. Não vai embora”.

O enterovírus geralmente causa sintomas como tosse, espirros e febre moderada e se espalha por meio da saliva e muco. Por nem sempre ser diagnosticado, pois os sintomas leves se assemelham a de um resfriado, ninguém sabe o quão é comum.

Um surto nos EUA no final do verão de 2014 foi mais grave do que o habitual: centenas de crianças hospitalizadas por problemas respiratórios graves foram diagnosticadas com o vírus, publicou a revista Nature.

Na mesma época, mais de uma dúzia de crianças na área de Kansas City, Missouri, e em Denver, ambas com grandes surtos de EV-D68, tiveram uma súbita perda de controle muscular. Muitos tinham febre ou tosse leve nos dias anteriores ao desenvolvimento dos sintomas, mas eram saudáveis.

Em dezembro de 2014, 120 crianças em 34 Estados dos EUA haviam sido diagnosticadas com AFM – “algo que não havia sido relatado desde os dias em que a pólio estava circulando", disse à Nature, o virologista do CDC, Mark Pallansch.

Os cientistas suspeitaram de uma ligação entre os casos de paralisia e o surto EV-D68, mas apenas um paciente tinha evidência do vírus em seu líquido cefalorraquidiano, o local habitual para procurar por patógenos que infectam o sistema nervoso central, e menos da metade testou positivo em fezes ou amostras respiratórias. Isso pode ser porque as amostras foram tomadas tarde demais para detectar o vírus, dizem os pesquisadores. A MFA geralmente aparece mais de uma semana após os sintomas iniciais de tosse ou febre.

O outono de 2016 viu outra onda de casos intrigantes: 149 deles em 39 Estados dos Estados Unidos. Naquele ano, 29 pacientes com AFM em 12 países europeus também tiveram resultado positivo para EV-D68.

A pesquisa de laboratório reforçou o argumento de que o EV-D68 poderia estar envolvido. No ano passado, Kenneth Tyler, da Escola de Medicina da Universidade do Colorado, e seus colegas relataram que várias cepas de EV-D68 poderiam causar paralisia em camundongos.

O vírus parece ter como alvo as células nervosas envolvidas no controle muscular, o que torna a ligação muito mais plausível. O estudo também sugere que o vírus está atacando as células nervosas diretamente, não apenas desencadeando uma resposta imune que danifica os nervos.

Outros demonstraram que o vírus pode infectar células neuronais no laboratório. Enquanto isso, cientistas descobriram que o EV-D68 pode ser detectado de forma muito mais confiável em fluidos respiratórios do que em amostras de fezes ou líquido cefalorraquidiano, onde o poliovírus aparece, o que facilita a identificação de infecções.

Uma teoria é que o vírus pode infectar os nervos em casos raros, quando desliza em um músculo lesionado. Outra é que fatores genéticos desempenham um papel neste processo.

À medida que a campanha de 30 anos para erradicar a pólio acabar, a atenção será transferida para outros vírus que podem paralisar as crianças. “Estamos vendo mais casos disso nos EUA do que vemos na pólio em todo o mundo”, conta Tyler. “Você não precisa de muitas crianças paralisadas para tornar isso um problema importante”.

Não há vacina contra o EV-D68. Uma vacina candidata desenvolvida na China mostrou resultados promissores em camundongos, “mas no momento, a taxa de complicações do vírus são muito baixas para fazer valer a vacinação generalizada”, diz Heli Harvala, virologista da University College London. Ainda assim, “pode ser algo que precisamos considerar. É bom estar preparado”.

Revista Galileu

Foto: Pixabay