sexta-feira, 24 de maio de 2019

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“Este é o momento histórico para a Amazônia”

Em conferência na PUC-SP, cardeal Cláudio Hummes ressaltou que toda a Igreja deve se interessar pelo Sínodo para a Amazônia.

28/02/2019 13:56:00


O cardeal Cláudio Hummes, arcebispo emérito de São Paulo e presidente da Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam), foi o convidado da aula inaugural do ano letivo de 2019 da Faculdade de Teologia da PUC-SP, no campus Ipiranga, em 19 de fevereiro. Dom Cláudio fez uma conferência sobre a preparação da Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Amazônia, que será realizada em outubro, no Vaticano.

Além de Presidente da Repam, o Cardeal Hummes é membro da Comissão Especial para a Amazônia da CNBB, e, por isso, foi nomeado pelo Papa como um dos membros da comissão que auxilia a Secretaria Geral do Sínodo a preparar a Assembleia.

PROCESSO GRADUAL

Dom Cláudio explicou que a decisão do Papa de realizar um sínodo para a Amazônia resulta de um processo gradual, que se iniciou em 2013, durante sua viagem ao Rio de Janeiro, para a Jornada Mundial da Juventude. Nessa ocasião, em um discurso aos bispos brasileiros, o Santo Padre deu destaque especial à Igreja na Amazônia, identificando-a “como teste decisivo, banco de prova para a Igreja e a sociedade brasileira”.

Um tempo depois, em uma conversa privada com Dom Cláudio, o Pontífice lhe manifestou a ideia de reunir os bispos da Amazônia. “‘Talvez um sínodo. Mas a ideia ainda não está madura. Reze comigo para isso’, me disse o Papa”, acrescentou.

A ideia foi amadurecida e, em 15 de outubro de 2017, no fim da celebração da canonização dos Protomártires do Brasil, o Papa anunciou a convocação do Sínodo para a Amazônia.

ESCUTA

Dom Cláudio salientou que, desde o início do processo sinodal, o Papa insistiu na necessidade de ouvir os povos que vivem na Amazônia. Essa experiência foi vivida concretamente no encontro do Papa Francisco com representantes de povos indígenas em Porto Maldonado, no Peru, em janeiro de 2018. “Foi algo histórico e comovente. Ali, o Papa dizia aos indígenas que eles são interlocutores insubstituíveis no Sínodo, convidando-os a serem sujeitos da própria história”, destacou o Cardeal.

O Arcebispo Emérito explicou, ainda, que a consulta realizada em todas as 20 dioceses, prelazias e vicariatos apostólicos da Pan-Amazônia tem o objetivo de ouvir o máximo possível a população do território, especialmente os povos indígenas, os bispos, as comunidades e seus missionários.

No Brasil, já foram realizadas mais de 20 assembleias territoriais para aprofundar a reflexão do Documento Preparatório e serem colhidas as contribuições locais. Além dessas assembleias, em cada diocese estão acontecendo encontros com o mesmo propósito. As respostas devem ser enviadas à Secretaria do Sínodo até o fim de fevereiro.

CRISE CLIMÁTICA

O cardeal Hummes ressaltou que o Sínodo para a Amazônia acontece no contexto da Encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco, sobre o cuidado com a casa comum. “Por isso, este Sínodo não terá um significado só para a Amazônia, mas para o mundo, mencionando outros biomas que precisam ser preservados”.

Outro estímulo apontado por Dom Cláudio para esse Sínodo foi a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP 21), realizada em Paris, na França, em 2015, quando foi publicado um acordo climático assinado por mais de 190 países.

Dom Cláudio considera a Laudato Si’ e o acordo climático “dois documentos históricos irrefutáveis” que alertam para a crise climática vivida na Terra. “O planeta não está mais aguentando tanta destruição e intervenção irresponsável e predatória por parte da atividade humana”, afirmou.

CAUSAS

Entre as causas, o cardeal destacou a forma como o ser humano intervém na natureza, o que o Papa chamou de “globalização do paradigma tecnocrático”, resultante do atual “modelo dominante” de desenvolvimento.

“A tecnociência deu um poder enorme à humanidade. Mas, ao ser humano moderno, falta ‘uma ética sólida, uma cultura e uma espiritualidade que lhe ponham realmente um limite e o contenham dentro de um lúcido domínio de si’”, salientou Dom Cláudio, citando a Laudato Si’.

ECOLOGIA INTEGRAL

Como caminho para enfrentar essa crise, o Papa Francisco chama a atenção para a necessidade de uma ecologia integral. “Em nosso planeta, tudo está interligado. Os seres humanos não estão aqui como se fossem simplesmente trazidos de fora como ‘estranhos’ e colocados nele, onde se sentem donos absolutos. Deus, ao se encarnar, faz a definitiva interligação com esse planeta. Jesus ressuscitado é o ponto culminante da caminhada desse planeta. Já São Paulo afirmava que ‘Jesus é o primogênito de toda a criação’ (Cl 1,15)”, destacou o cardeal.

A partir dessa concepção, Dom Cláudio afirmou que surge a necessidade de novos modelos de desenvolvimento, que não sejam predatórios. “O Sínodo poderá estimular para que se encontrem novos modelos.”

IGREJA AMAZÔNICA

Especificamente sobre os desafios da ação evangelizadora da Igreja na Pan-Amazônia, Dom Cláudio recordou a preocupação do Papa Francisco para que a fé seja inculturada na Amazônia. Nesse sentido, insiste-se na necessidade de uma “Igreja indígena para a comunidade indígena”.

“Hoje, fala-se muito em uma Igreja indigenista, que defende os direitos dos povos. Isso é importante, mas não basta, é preciso de uma Igreja indígena, que tenha seus padres, identidade, cultura e história”, afirmou.

Sobre a falta de sacerdotes, o Cardeal destacou o drama que os católicos da Amazônia vivem com a falta dos sacramentos, especialmente a Eucaristia, Reconciliação e Unção dos Enfermos, que são ministrados pelos padres e bispos. “Esses são os sacramentos da vida cotidiana. Não podem faltar para essas comunidades. Muitas delas se reúnem para celebrar a Palavra, mas faltam os sacramentos. A Palavra me ilumina, mas são os sacramentos que dão força para pôr em prática a Palavra”, afirmou.

MINISTÉRIOS

Diante da dificuldade vocacional, surgiram ideias como a possibilidade de ordenação sacerdotal de homens casados de fé comprovada para exercer o ministério nessas regiões específicas. No entanto, Dom Cláudio enfatizou que esse pode ser até um assunto de discussão no Sínodo: “Mas o Papa tem alertado para o cuidado de não desviar o foco do Sínodo, que é sobre a Amazônia e a ecologia integral, não sobre ministérios”, disse. O Cardeal lembrou, ainda, que o celibato é um carisma que a Igreja não pode perder e que o Santo Padre tem afirmado isso reiteradas vezes.

TEMPO DE GRAÇA

“Este é o momento histórico para a Amazônia, não podemos perder esse Kairós [tempo de graça]. Todos nós somos responsáveis pelo bom êxito desse Sínodo”, concluiu Dom Cláudio, reforçando que todos os brasileiros devem se interessar pelo caminho sinodal. “Esse tema precisa ser levado para além da Amazônia, que está gritando por socorro. Todos nós precisamos ir ao encontro de suas necessidades.”

Fernando Geronazzo/Jornal O São Paulo