sexta-feira, 24 de maio de 2019

Notícias

GUARAPUAVA: Jovem missionário é assassinado durante atendimento a dependente químico

Wycaro Elias Domingues de Deus foi morto a facadas na noite de 29 de março de 2019, no bairro Residencial 2000, em Guarapuava. O jovem que seria atendido pelo missionário é o suspeito do crime.

23/04/2019 10:24:00


Há muitas ações realizadas no silêncio. Nas caladas das noites, em altas madrugadas, boas almas perambulam pelas cidades ao encontro das dores, dos medos, dos anseios de quem mais precisa. Neste silêncio, há um coração que grita e que clama por justiça. E este clamor, nem mesmo a morte é capaz de silenciar, pois é resultado de um dom dado por Deus, pelo mesmo Deus que dá a vida e a quer em abundância para todos.

Como canta Thiago Brado, “não sabemos quanto tempo temos para respirar... vale a pena lembrar que a vida é curta demais”. A música Verdades do Tempo nos leva a refletir sobre a vida e como ela é passageira.

Na quase madrugada de 29 de março, um rapaz de 26 anos, foi morto. Ele era Wycaro Elias Domingues de Deus. Segundo a família ele era doce, do olhar sincero, do sorriso fácil, de tremenda coragem e humildade. Wycaro dedicou a vida ao próximo, assim como os santos que tinha como exemplo: São João Bosco, São Francisco de Assis, São Felipe Neri, entre outros.

Há oito anos, no dia 12 de outubro de 2010, dia de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil de quem era devoto, Wycaro fundou o movimento “Assis para as ruas”.

Doando-se em tempo integral ao próximo, principalmente àqueles esquecidos pela sociedade, Wycaro foi construindo sua vida alicerçada na piedade e no amor, como fazia São Francisco de Assis.

Porém, no dia 29 de março, essa caminhada terrena foi interrompida e a voz de Wycaro silenciada, pelo menos nesse plano, pois em outra esfera, com certeza, ele deve continuar com sua missão que é essencial no salvamento de muitas vidas partidas, deterioradas, mas que podem e devem ser restauradas.

O missionário foi chamado para atender a uma pessoa alterada pelo uso de drogas. Como sempre fazia, não pensou duas vezes antes de prestar socorro ao necessitado. Porém, esse atendimento não chegou a se concretizar, pois ao chegar ao local, Wycaro foi agredido por vários golpes de faca e morreu na hora. O suspeito do ato (que confessou o crime às autoridades) é o mesmo rapaz que necessitava de ajuda e que Wycaro tinha ido ao encontro.

O crime contra o missionário entristeceu muitas pessoas, mas seu exemplo não deixou que a missão ficasse abalada, ao contrário, conforme os integrantes do grupo, só veio fortalecer a caminhada.

Amigos, parentes e pessoas que foram ajudadas por Wycaro prestaram condolências à família e foram unânimes em dizer que seu trabalho fez toda a diferença, principalmente para uma parcela da sociedade que, muitas vezes, sequer tem esperanças ou sonhos.

Elias Domingues de Deus, pai do missionário, falou à reportagem do Centro Diocesano de Comunicação (CDC) e contou um pouco sobre a rotina e os trabalhos desenvolvidos por Wycaro ao longo do tempo. Conforme Elias, o filho sempre fora uma pessoa alegre, expansiva e muito feliz, fazendo com que sua alegria fosse contagiante e instigasse a todos à sua volta a buscar a felicidade a qualquer custa. “O Wycaro era aquela pessoa que dentro da família, sempre tinha vínculo com as tias, com os primos, com sobrinhos e principalmente com as pessoas de mais idade. Em casa, ele era aquele piá que chegava, brincava com os irmãos. Ele cutucava um, cutucava outro, para se sentir totalmente com liberdade para conversar. Dentro da casa ele era aquele piá que quando chegava, já chegava gritando ‘mãe, cheguei’. Se ele saía, dizia: ‘eu estou saindo, já volto’, se ele chegasse dez vezes, dez vezes ele falava que chegou e ao sair, a mesma coisa”, relembra o pai com emoção.

Elias grifou sobre o trabalho silencioso que Wycaro desenvolvia junto ao grupo “Assis para as ruas”. A discrição do filho quanto às pessoas que passam por problemas com drogas e que ele assistia, era fator fundamental em seu trabalho. “Quanto ao trabalho de Assis, essa é uma coisa que eu não posso dizer para vocês. Ele trabalhava com sigilo. Assis, para ele, era como se fosse um A.A. (Alcoólicos Anônimos). Ele jamais dizia qualquer coisa sobre as pessoas que ajudava; sobre quem lidava com drogas, por exemplo. Depois que ele faleceu, a ausência dele é inexplicável. Foi a mesma coisa que tivessem tirado um pedaço de mim. É como se tivessem tirado um dos meus dedos e, quando eu olhar para minha mão, sempre vou saber que ali havia um dedo e que foi tirado de mim. Falta um pedaço em minha vida. A ausência dele está sendo muito difícil, dolorosa, insuportável”, desabafou o pai.

Devoto de Nossa Senhora Aparecida, Elias lembrou que sempre pediu a intercessão da Virgem para conter os medos que sentia durante a longa jornada missionária desempenhada por Wycaro. “O medo era constante. Eu sou devoto de Nossa Senhora Aparecida e entreguei tudo a ela. Que ela o levasse e o trouxesse bem. Jamais meu pensamento era que ela o levasse para sempre. Mas mesmo assim, a gente sempre estava apoiando ele, mesmo com dor e medo”, relembrou o pai.

Amiga e companheira de missão, Letícia Konoval falou da alegria que foi poder trabalhar com Wycaro. Ela também ressaltou o sonho de longa data do missionário que tinha como grande objetivo, resgatar pessoas do mundo das drogas. “Quando conheci o Wycaro, foi inacreditável, porque nós dois caminhávamos com o mesmo objetivo e um não sabia do outro. O meu primeiro contato com ele foi durante a catequese para os meninos que não tinham idade de estar na catequese de Primeira Eucaristia e nem na de adulto. Então, houve um encontro na comunidade São José Operário onde ele coordenava a reunião e eu fui participar, pois havia alguns meninos que queriam fazer a catequese. Após essa reunião, começamos a conversar frequentemente e a trabalhar juntos. Wycaro sempre sonhou em resgatar os jovens, mas não chegando e falando de Deus e sim mostrando a sua amizade e disposição para com os outros e aí sim começava a ‘evangelizar’. Desde então, começamos a caminhar juntos. Em vários retiros que aconteciam da AJS (Articulação da Juventude Salesiana) eu o encaixava e a alguns meninos também. Algumas formações eu o convidava e organizávamos juntos. Vigílias: planejávamos juntos, pois o nosso maior objetivo era estar com os meninos e acreditar que eles se tornariam pessoas diferentes e evangelizariam outros jovens”, ressalta Letícia.

A jovem também falou da confiança que o amigo despertava nas outras pessoas, tornando-as amigas e confidentes. “Muitas e muitas vezes passávamos noites conversando com os jovens, momentos informais que ajudavam a garantir a confiança e a amizade dos mesmos. Eram muitos os trabalhos de formiguinha que o Wycaro fazia e sempre davam certo. Wycaro era uma pessoa inacreditável, muito simples, humilde, com um sorriso maravilhoso, um coração generoso e cheio do amor de Deus e devoção a Maria. Sou grata a Deus por ter permitido dividir muitos anos de minha vida com ele e de me proporcionar conviver com esses meninos da forma que convivi. Nossa frase de caminhada sempre foi: ‘Se existem meninos maus é porque não há pessoas que cuidem deles’ (Dom Bosco). Eu continuo acreditando nisso, pois ele fazia muito mais do que podia por esses jovens. Partilhávamos o mesmo sonho e as mesmas dificuldades. Hoje ele intercede por nós lá de cima e sei que sempre vai caminhar com a gente nessa missão de salvar as almas”, enfatiza Letícia.

Durante a missa de corpo presente na capela São José Operário, em Guarapuava, o padre José Sávio Mariano, que pertence à congregação Sociedade São Francisco de Sales - Salesianos de Dom Bosco, enfatizou a importância do trabalho de Wycaro para a sociedade, sobretudo, para quem, em muitos momentos, se sente perdido, sem oportunidade alguma. “Se existissem dez Wycaros no mundo, os jovens estariam salvos”, destacou o sacerdote durante a encomendação.

Amigo e parceiro do missionário há vários anos, Jocemar Demello, relembrou que Wycaro guardou para si durante muito tempo a ideia de implantar o projeto “Assis para as ruas”. Conforme Jocemar, Wycaro sabia que era impossível fazer esse trabalho sozinho e, por isso, compartilhou a ideia com algumas pessoas nas quais ele confiava e com as quais poderia contar para uma missão tão árdua.

“Essa ideia do projeto ‘Assis para as ruas’ nasceu no coração de Wycaro há pelo menos dez anos. Durante dois anos ele guardou para si esse sonho. No dia 12 de outubro de 2010, ele decidiu que o projeto missionário deveria nascer. Ele convidou a mim e à minha mulher, Viviane Kreimer, para participar da missão. Também chamou o casal Edenilson e Daiane Kreimer para dar início à obra. Firmamos esse compromisso há cinco anos e assumimos que éramos ‘assisianos’ a partir de então. Passamos a desenvolver este trabalho na comunidade São José Operário (Bairro Industrial). No começo, somente eu e minha mulher atuávamos, mas hoje, somos em 19 pessoas. Hoje a gente entende a santidade do Wycaro, a gente entende porque ele tinha tanta pressa em querer fazer tudo. Era como se ele adivinhasse que iria passar, mas mesmo assim, ele foi até o último minuto como mártir que morreu por Jesus. Ele foi como ovelha até os lobos. E ele perdoou. Então, se ele mesmo deu esse perdão, quem somos nós para não perdoar? Assis (para as ruas) continua vivo. Wycaro será sempre lembrado e essa obra vai prosseguir”, discorre Jocemar.  

A prima do missionário, Carolina Kraus de Deus, sublinhou que do primo e amigo, guardará somente ótimas lembranças. Ela ressalta a coragem e a humildade do rapaz que carregava no olhar a docilidade da vida. “Wycaro era o menino doce do olhar sincero, de tremenda coragem e humildade. Ele dedicou sua vida ao próximo, assim como os santos que tinha como maior exemplo: São João Bosco, São Francisco de Assis, São Felipe Neri, entre outros. O seu sobrenome já dizia tudo ‘de Deus’. No curto espaço de tempo em que esteve aqui na terra, nos mostrou que a melhor forma de chegar até Deus é amando, respeitando e ajudando o próximo. Um menino que não poupou esforços para levar jovens para pertinho do Pai e de Nossa Senhora, com o seu sorriso, abraço amigo e palavras acolhedoras. Nossa dor é imensa, mas o que nos conforta é saber que está no céu intercedendo por nós, guiando nossos passos e mostrando sobre como viver um dia após o outro sem sua presença física”, considera Carolina.

Tia de Wycaro, Evanilda Kraus de Deus escreveu o seguinte texto em sua página no Facebook: “‘Eu penso que temos que ser tão firmes na execução da nossa missão que, se nos fosse apresentada a alternativa: ou a missão ou a vida, deveríamos decidir-nos pela missão’ (Frank Duff - Fundador da Legião de Maria, 12 de maio de 1949). Em alguns momentos sinto uma grande culpa em meu coração, pois de certa forma eu incentivei e apoiei tudo o que ele fez, pois percebia que para ele, alguma coisa faltava. Ele comungava das dores de seus irmãos que eram esquecidos. Quando ele perdeu aquele primeiro amigo vítima da violência (Maycon) e passou um longo tempo indo todos os dias ao cemitério, eu disse que ele tinha que fazer algo mais concreto em memória desse jovem. Então, ele que já participava da Legião de Maria com a gente, começou a trazer os jovens para os eventos (da Legião). Nesse período, ele também passou a ensinar catequese de adultos, e foi percebendo que na rotina e na vida doída de muitos não havia espaço e nem condições para cumprir uma disciplina religiosa de estar toda semana no mesmo lugar para escutar a palavra de Jesus proferida por ele. Então, cumprindo o papel de mestre-aprendiz do Assistente Legionário mesmo sendo tão jovem, ele ia atrás do menino que faltou naquele dia na catequese de adulto e o encontrava em rodinhas suspeitas nas esquinas ou em casas cheias de outros jovens na mesma condição. Então, em vez de virar as costas e voltar para os braços e aconchego da sua família, ele ficava ali e se tornava a família deles e assim foi sucessivamente até o último dia precoce da sua vida. Como disse no início, de certa forma tenho culpa nessa fatalidade que aconteceu e peço perdão para minha família, para seu pai, para sua mãe, seus irmãos, suas sobrinhas, seu sobrinho, pois creio que fui uma das únicas pessoas da família que nunca disse ‘não vá’, ‘não faça’. Mesmo sabendo do risco de vida que ele corria, eu o incentivei a correr para os braços da mãe celestial tão precocemente. Nunca disse ‘não vá’ para ele, pois cada um tem sua missão e constantemente ele me perguntava: ‘Tia, qual mesmo era aquela frase de Frank Duff?’. Eu a resumia: «E se tiver que escolher a vida ou a missão, escolha a missão».  E vivendo essa frase proferida incansavelmente nos relatórios do praesidium juvenil Auxílio dos Cristãos (do qual inicialmente foi membro ativo, e por fim era auxiliar), seguiu a ordem do primeiro modelo religioso vivido por ele e foi além, juntou a esse modelo, outros tantos como Dom Bosco, Felipe Neri, Paulo e Padre Léo e fundou o Movimento ‘Assis para as ruas’ e levou tantos outros missionários com ele, para tirar os jovens das ruas e levá-los para dentro da igreja. Seu trabalho foi além do jovem em situação de vulnerabilidade. Ele queria resgatá-los de todas as ‘ruas’, afastar de tudo que condiciona a depressão, o isolamento e levá-los para junto de Deus. Mesmo dentro de sua imensa humildade me disse um dia: ‘Tia, eu gostaria que o bispo reconhecesse formalmente o nosso movimento aqui em Guarapuava. Agora, ele é perpetuado no exército legionário, por toda a eternidade”, concluiu Evanilda.

Maicon Fernandes que por várias vezes foi atendido por Wycaro, falou à reportagem do CDC e observou que se sente privilegiado por ter tido tal oportunidade. Maicon ressalta que a partir do contato com o missionário, passou a acreditar muito mais na vida e em sua capacidade de desenvolver projetos que fossem ao encontro do bem comum e dos planos de Deus.

“Sinto que fui privilegiado por Deus por ter tido a oportunidade de conviver com o Wycaro, um mano do bem, que sempre nos ensinou o amor. Quando eu o conheci, eu era um menino muito louco, que não queria nada com nada. Mas, mesmo assim, ele acreditou em mim. Foi como o pastor atrás da ovelha perdida e me mostrou que eu tinha valor. Em uma carta que escreveu para mim, ele disse que um dia eu levaria jovens para a igreja. Isso se concretizou, pois hoje, aqui, eu faço parte do movimento Assis para as ruas. Tenho muito orgulho desse trabalho, embora no começo eu não entendesse direito qual era a minha missão. Mas o Wycaro me mostrou que a grande sacada era somente amar, que isso já bastava”, discorreu o jovem.

Maicon emendou, lembrando a sensação horrível que sentiu quando soube da morte do amigo e mentor espiritual. “Quando eu soube a notícia do que tinha acontecido com ele, não acreditei. Foi no dia do meu aniversário e tínhamos combinado de comemorar e não de sofrer. Naquele momento, eu me questionei muito sobre diversas coisas, mas principalmente sobre o Wycaro, um cara bacana e o porquê de algo dessa natureza acontecer a ele. Hoje, infelizmente só resta a saudade desse mano do bem. Saudade dos seus conselhos quando me sentia em dúvida. Saudade das mensagens inesperadas para me alegrar quando eu estava triste e das nossas conversas altas horas da madrugada, sobre nossos sonhos para o movimento Assis para as ruas. Agora, eu só posso dizer que quero continuar com seus sonhos, seguir o que ele ensinou e deixou como legado. Uma frase que ele dizia e que me marca muito é a seguinte: ‘o ato mais simples que pode mudar o mundo é o amor’. E é isso mesmo: devemos amar sempre e cada vez mais, para que esse tipo de coisa que ocorreu com ele, nunca mais ocorra. Devemos simplesmente amar”, finalizou Maicon.  

Por Izabela Scorsin (estagiária), com supervisão e edição do Centro Diocesano de Comunicação (CDC)