terça-feira, 15 de outubro de 2019

Artigo

ARTIGO: Quando a morte não é uma vitória

A vida humana, em qualquer caso, deve ser protegida, porque é um dom de Deus e mereceu o sacrifício de Cristo na Cruz.

12/09/2019 08:41:00


Cenas de violência ou de morte estão presentes nos noticiários cotidianamente e isso parece ter se tornado rotina que não causa mais espanto ou surpresa. A rotina leva a uma acomodação, que, por sua vez, vai tomando forma de indiferença e aceitação da violência. Algumas vezes, um fato mais chamativo se destaca, provocando um conflito de sentimentos, e toma proporções maiores nos noticiários. Nessas ocasiões, as opiniões ficam divididas em lados opostos, em que alguns falam de vida e outros de morte. Quem tem razão?

A vida em sociedade exige a manutenção da paz e da ordem pública e a constituição de forças de segurança em diversos níveis. Essas forças são legítimas e devem promover o bem comum, garantindo os direitos individuais. Quando existe uma ameaça à ordem pública, as forças de segurança podem e devem atuar a fim de resgatá-la. Nessas circunstâncias, compreende-se a necessidade e o uso da força, como última possibilidade, quando todas as outras foram esgotadas. Mas, nesse caso, existe vitória?

As cenas que envolveram o sequestro de um ônibus no Rio de Janeiro, em 20 de agosto, colocam-no exatamente neste contexto de violência e restauração da ordem pública, com uso de força letal. De uma parte, é preciso pensar nas pessoas que foram mantidas presas, com risco de morte. Elas estavam diretamente sob o impacto da violência e sujeitas ao medo. Para elas, não se tratava de uma teoria sobre certo e errado, mas de uma situação real de vida ou morte. Qual seria a minha reação nesse contexto?

Uma situação tão grave exige olhar os fatos de outros dois ângulos. De um lado, está aquele que provocou o conflito. Usando de sua vontade, ele foi violento, sequestrando e mantendo prisioneiras aquelas pessoas. Seus atos não podem ser tolerados, eles têm uma gravidade e exigem uma resposta. Do outro lado, estão as forças de segurança, que precisam restabelecer a ordem, e que para isso devem considerar todas as possibilidades éticas e morais em jogo. A vida de toda pessoa tem a mesma dignidade?

As respostas a essas perguntas podem levar a uma calorosa discussão e defesa de posições justificadas de todos os lados envolvidos. Porém, como cristãos, nós não podemos ficar na superfície de uma análise sentimental ou ideológica dos acontecimentos. A vida humana, em qualquer caso, deve ser protegida, porque é um dom de Deus e mereceu o sacrifício de Cristo na Cruz. Acreditamos na ressurreição, isso é verdade, mas a morte nos causa dor, principalmente uma morte violenta, que não deve ser comemorada ou aplaudida nunca. No contexto do sequestro no Rio de Janeiro, o gesto mais cristão e solidário foi dado por um pai consolando uma mãe, ambos vítimas da violência.

Dom Devair Araújo da Fonseca/O São Paulo