sábado, 31 de outubro de 2020

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FAKE NEWS: Um vírus letal que se espalha mesmo em tempos de distanciamento social

Com a facilidade de acesso às redes sociais, muitos assuntos considerados de pouca relevância para a sociedade, passaram a ocupar lugar de destaque nas discussões.

15/10/2020 14:27:00


 

O termo é em inglês, mas na maior parte do mundo, já se tornou lugar-comum, quando se referem a notícias falsas. De uns anos para cá, as “fake news”, assim como um vírus sem cura, chegaram para ficar em meio a uma população que a cada dia, torna suas atividades cada vez mais voltadas para o meio digital.

Em uma definição sucinta do portal Brasil Escola, “fake news são notícias falsas publicadas por veículos de comunicação como se fossem informações reais. Esse tipo de texto, em sua maior parte, é feito e divulgado com o objetivo de legitimar um ponto de vista ou prejudicar uma pessoa ou grupo (geralmente figuras públicas). As fake news têm um grande poder viral, isto é, espalham-se rapidamente. As informações falsas apelam para o emocional do leitor/espectador, fazendo com que as pessoas consumam o material ‘noticioso’ sem confirmar se é verdade seu conteúdo. O poder de persuasão das fake news é maior em populações com menor escolaridade e que dependem das redes sociais para obter informações. No entanto, as notícias falsas também podem alcançar pessoas com mais estudo, já que o conteúdo está comumente ligado ao viés político”.

Já está provado que, além de atrapalhar a vida da população no dia a dia, as fake news causam imenso impacto na saúde das pessoas, tanto física como psicologicamente.

Mylena Bini, tem 25 anos, é médica e se formou em 2019 pelo Centro Universitário Ingá. Atualmente, ela trabalha no Centro de Apoio Psicossocial - Álcool e Outras Drogas (CAPS AD III), em Guarapuava (PR).

De acordo com a médica, a pandemia de Coronavírus trouxe uma grande mudança de comportamento para todas as pessoas e as adaptações vão continuar pelos próximos anos. “Ainda é muito cedo para se assimilar e avaliar tudo o que está acontecendo. As coisas ocorrem com muita rapidez. É claro que todos os profissionais de saúde sabiam que mais dia, menos dia, a pandemia iria chegar até nós.  Mas o que não imaginávamos, era sobre essa agressividade que o vírus tem. Uma coisa que eu não esqueço, é que quando tudo se fechou, fiquei muito preocupada. Alguns não morrem pelo vírus, mas por outras doenças, que não deixaram de existir. E, pelo medo do vírus, muita gente acabou morrendo em casa. O medo, foi o que mais impactou nesse processo todo”, pontuou Mylena.

Em entrevista a esta reportagem, o sacerdote diocesano e pároco da paróquia Sant’Ana, em Pitanga (PR), padre Gilson José Dembinski, falou sobre esse problema e o resultado nocivo que ele causa.

Padre Gilson tem 38 anos de idade e há 11 anos foi ordenado presbítero. Possui especialização em Teologia Bíblica e Ensino Religioso, Orientação Espiritual e Aconselhamento Pastoral.

Além das atividades no dia a dia como religioso, padre Gilson desenvolve diversos trabalhos voltados para as pessoas, com foco na espiritualidade e evangelização, tais como visita às casas e atendimento individual através da Pastoral da Escuta. “Aqui na paróquia, temos uma psicóloga contratada para trabalhar na Pastoral da Escuta. Mas como padre, ofereço suporte espiritual. No entanto, não há como atender a todos os casos, pois os outros afazeres não permitem. O psicólogo faz todo um trabalho de acompanhamento e retorno das consultas e isso, infelizmente, um padre não pode fazer como deveria, por causa das outras funções. Mas além da psicóloga, temos uma irmã (religiosa) que ajuda nesse serviço também. Neste trabalho (de escuta) não há aconselhamento. Ela (a irmã) apenas ouve o que a outra pessoa tem a dizer”, destacou padre Gilson.

De acordo com o sacerdote, a Pastoral da Escuta da paróquia Sant’Ana, atende em média 50 pessoas por semana e, muitos dos problemas, têm a ver com mensagens falsas disseminadas pela internet, principalmente pelas redes sociais.

Como em todas as comunidades, a notícia de que o mundo estava (e está) passando por uma pandemia, foi facilmente assimilada pelos paroquianos da paróquia Sant’Ana. Porém, conforme sublinha o pároco, cada pessoa entendeu e absorveu a situação de forma diferente e nessas divergências, outros problemas foram criados, impactando diretamente na vida de cada um. “Eu considero que o problema foi assimilado com facilidade. Chegou a notícia e pronto, as pessoas entenderam do que se tratava. Por um lado, houve muitas divergências na própria comunidade. Uns, com a ideia negacionista, dizendo: ‘isso aqui não é um problema tão sério’. Por outro lado, surgiram pessoas com ideias totalmente extremistas: ‘a pandemia vai matar todo mundo’. Houve, portanto, dois extremos e nenhum foi bom. E os meios de comunicação reforçaram isso de ambos os lados. Eu considero isso uma patologia, uma doença que afetou diretamente o emocional das pessoas”, pontuou o pároco.

REDES SOCIAIS

Com a facilidade de acesso às redes sociais, muitos assuntos considerados de pouca relevância para a sociedade, passaram a ocupar lugar de destaque nas discussões. Na maioria dos casos, houve a inversão de informações, tornando, portanto, explícita a fake news.

Para a médica Mylena, as redes sociais, não só na pandemia, mas na maioria das vezes, se tornam um grande problema para toda a sociedade, pela capacidade de espalhar mensagens, nem sempre verdadeiras a respeito dos diversos assuntos. “Antes e durante a pandemia, eu vi e vejo as redes sociais como um grande problema. Muita gente acredita no que é mostrado, sem checar as fontes. Eu sempre orientei meus colegas e pacientes para que busquem as informações nos veículos oficiais, como Ministério da Saúde e Organização Mundial da Saúde, por exemplo. Tudo o que você vê e lê nas redes sociais, como Facebook, Instagram, Youtube e tantas outras redes, procure comparar e se certificar se realmente é verdade. Uma simples brincadeira de mau gosto, pode levar uma pessoa a ter problemas sérios de saúde, tanto física como mental”, sublinha Mylena.

Padre Gilson reforça que não há como negar a influência das redes sociais na vida das pessoas, principalmente neste período de pandemia. Assim como a médica, ele pede cuidado e paciência quanto à checagem das informações. “A influência das redes sociais na vida das pessoas é muito grande e isso não se mostrou apenas agora, com a pandemia. Isso vem de longa data. A política fez e faz uso desses recursos, com o objetivo de mudar o foco e a intenção de cada um. Quando se fala muito sobre o assunto, há um verdadeiro bombardeio na mente das pessoas. O que era uma mentira, uma fofoca, passa a ser assimilado como verdade. A hipnoterapia prova isso. E é por isso que eu digo, que nós, no dia a dia, somos hipnotizados por tantas informações e, como um vírus, as fake news se aproveitam dessa fragilidade da população e fazem um verdadeiro estrago, pois a pessoa entende a informação como uma sugestão e, pela sugestão, ela acata o direcionamento do outro”, explica padre Gilson.

HIPNOSE

Segundo a página do Instituto Milton Erickson Brasil Sul, “a hipnose constitui-se no registro mais antigo de todas as terapias. Seja nas histórias referidas nos afrescos das cavernas, seja nas cerimônias xamânicas com dança, seja através de rituais de cura com sacerdotes, perde-se no tempo da história de todos os continentes, o uso dos estados alterados de consciência para a autocura. Tais estados são caracterizados pela fenomenologia hipnótica do transe, que vai se expressar através do grau de sensibilidade individual das pessoas em cada sessão. Durante o transe, que é um estado natural, a mente fica hiperfocalizada, proporcionando diversos benefícios ao paciente, pela flexibilização da comunicação entre a mente consciente e inconsciente”.

Conforme os profissionais, a hipnose não se trata de poder de uma pessoa sobre a outra, mas sim, de sensibilidade. Eles reforçam ainda, que “só é hipnotizado, quem se deixa hipnotizar”. Portanto, para que haja a absorção dessas informações, a pessoa precisa aceitar tal condição.

“Ninguém hipnotiza ninguém. A pessoa se deixa hipnotizar. É preciso esclarecer isso. Hipnose é técnica e não poder. Quando o fator crítico é rebaixado, há a vulnerabilidade. Não que sua consciência seja eliminada, mas ela é rebaixada. Em situações assim, a pessoa está propensa a aceitar sugestões, a ser induzida. E a fake news faz isso, ela reforça algo negativo ou positivo, mas que não é verdadeiro. Isso acaba por fazer com que a pessoa adoeça quando toma consciência de que tudo não passou de uma mentira”, explicou padre Gilson.

MUDANÇA DE IDEIA

Em uma matéria escrita pela jornalista Marina Demartini e publicada no portal da Revista Exame, em 10 de abril de 2016, há destaque para a dificuldade em fazer com que alguém mude de ideia. Conforme o texto, “[...] Persuadir alguém a mudar de opinião é uma tarefa muito difícil. A ciência, porém, descobriu alguns truques linguísticos que podem ajudar nesta empreitada. De acordo com um estudo feito pela Universidade Cornell, nos Estados Unidos, argumentos persuasivos seguem determinadas dinâmicas. Para realizar a pesquisa, os cientistas analisaram quase dois anos de publicações no ChangeMyView, um fórum do site Reddit em que um usuário apresenta um assunto e convida outros indivíduos a tentarem mudar sua teoria”, diz um trecho da reportagem.

Conforme Mylena, lidar com o negacionismo das pessoas em relação à COVID-19, por exemplo, não é tarefa fácil, pois a cada dia, surgem teorias criadas sem nenhum fundamento, mas que afeta diretamente quem ouve e toma aquilo como verdade. “Dos pacientes que atendo, há muitos que não acreditam, que dizem que o vírus não existe, que os caixões estão sendo enterrados vazios. Mesmo quando provamos para esses pacientes, que a pandemia está aí é e preciso cuidado, eles não aceitam e continuam a acreditar que tudo é uma invenção. E essa negação prejudica e muito o trabalho dos profissionais de saúde. De novo, nesse caso, entra o fator medo”, ressalta a médica.

Padre Gilson corrobora com a informação e pontua que fazer uma pessoa, sobretudo, alguém negacionista, a mudar de ideia, é uma das tarefas das mais difíceis, para não dizer impossível. “Trata-se de um reforço cognitivo. A pessoa acredita, por exemplo, que tal partido político é composto por ladrões. Então, tudo o que essa pessoa ouvir sobre aquele partido, ela vai acatar como verdade absoluta. E isso, principalmente no Brasil, acabou por tornar o período da pandemia ainda mais complicado, pois chegou a um ponto em que ninguém sabia em quem acreditar, em qual autoridade confiar. Esta situação se transformou em outra doença, de cunho psicológico. Eu acredito que as consequências serão grandes. Digo isso, sem querer ser pessimista, mas é o que se desenha neste período e o que se comprova. Percebo que haverá um hiato muito grande entre pobres e ricos. E tudo ocorrerá pelo fato de as autoridades de saúde e política, não falarem a mesma língua”, explicou o sacerdote.

VACINAS

Nunca se falou e se torceu tanto pela existência de uma vacina preventiva ao Coronavírus. Atualmente, são mais de 150 candidatas à imunização, sendo que destas, mais de dez já estão na fase três de pesquisas, que é a última antes da aplicação em massa.

Muitas pessoas, segundo especialistas, em um ato de otimismo exacerbado, acabam por acreditar que a vacina solucionaria todos os problemas. O que não vai ocorrer, de acordo com os mesmos especialistas.

Há diversas situações que carecem muito mais de informações e de políticas públicas, do que de um medicamento, propriamente dito. Neste processo, profissionais da saúde alertam para que a população tome muito cuidado com relação às notícias falsas.

Em uma matéria publicada no portal Pfarma, em 28 de agosto de 2020, com o título “Fake News sobre vacina contra COVID-19 cresce no Brasil”, ficam claras as controvérsias em se tratando do imunizante.

“Enquanto o mundo vive em meio à pandemia de uma doença grave e mortal, outra pandemia, mais sutil, vem se desenvolvendo, com efeitos igualmente perigosos. Trata-se de uma onda de desinformação envolvendo tanto a COVID-19 quanto os esforços da ciência para encontrar, o quanto antes, uma vacina que possa preveni-la”, diz um trecho da reportagem.

A mesma matéria, destaca que “um levantamento produzido pela União Pró-Vacina (UPVacina), um grupo de instituições ligadas à USP Ribeirão Preto que busca esclarecer informações falsas sobre vacinas, identificou um aumento de 383% em postagens com conteúdo falso ou distorcido envolvendo a vacina contra a COVID-19 – ou seja, a desinformação quase quintuplicou em dois meses. As preocupações trazidas pelo levantamento são reforçadas por um estudo recente realizado pelo grupo ativista Avaaz. Ele revelou que, entre 2019 e 2020, a desinformação ligada à saúde disseminada no Facebook foi acessada 3,8 bilhões de vezes em cinco países: Estados Unidos, Reino Unido, França, Alemanha e Itália. Esse conteúdo tem um alcance quatro vezes maior do que informações confiáveis provenientes de dez grandes instituições de saúde, entre elas a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA [...]”.

À reportagem, padre Gilson pontuou que o excesso de informações ao mesmo tempo, faz com que as pessoas se sintam bombardeadas e, na maioria das vezes, não tenham a menor condição de filtrar ou de verificar se o conteúdo é verdadeiro ou não. “Vivemos em um tempo das exigências. As pessoas precisam cuidar da família, do trabalho, das filas, da burocracia. E as informações são jogadas, disseminadas em grande quantidade e ao mesmo tempo. Cada pessoa tem suas crenças, valores e já está pré-disposta a acreditar em uma coisa ou outra. Nossa mente tende a negar tudo aquilo que fere a nossa visão de mundo. Ninguém suporta incongruência. O conselho, é para que ninguém desligue o fator crítico. As perguntas e questionamentos são fundamentais. Checar é necessário. Quem não questiona, está aberto a ser hipnotizado”, assegurou padre Gilson.

Mylena se diz muito cautelosa quanto às vacinas, pois se trata de algo novo e que precisa ser certificado pelas autoridades em todo o mundo quanto à sua eficácia. A médica pontua ainda, que uma possível vacina não elimina todos os problemas relacionados ao Coronavírus, pois para que as doses sejam aplicadas, há muitos critérios a serem seguidos. “Uma vacina não vai solucionar todos os problemas. Quando existir uma vacina, ela vai ser distribuída, primeiramente aos grupos de risco. Nossa população é muito grande e os grupos de risco também são enormes. Ainda não se sabe quando a vacina vem e se é eficaz cem por cento ou não. Então, não vamos acreditar em tudo o que a gente vê ou lê. Vamos com calma, com cautela”, salienta.

SEQUELAS

Mylena Bini, enquanto profissional da saúde, acredita que a pandemia deixará um rastro muito grande de sequelas na população. No entanto, ela destaca que o luto é a maior de todas as dores e que é preciso muito cuidado para que isso não gere outras doenças, como a depressão, por exemplo. “O luto é a maior das sequelas. As pessoas não estavam preparadas para lidar com a perda dessa forma. Lidar com o luto é muito difícil, principalmente neste caso, quando a pessoa não está esperando. A pandemia trouxe uma grande agressividade e essas sequelas dificilmente serão curadas. Mas a psicologia e a psiquiatria, farão um grande trabalho nesse sentido e eu acredito que vamos passar por essa situação, sempre contado com a ajuda desses profissionais. Mas a pandemia também trouxe uma grande oportunidade de reflexão. Tenha em mente que, para cuidar do próximo, você primeiro, precisa se cuidar, precisa estar bem. Cuide-se”, finalizou Mylena.

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