sábado, 26 de setembro de 2020

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CIÚME: Patologia preocupante que afeta grande parte da população mundial

Controverso e perigoso, o ciúme pode causar grandes problemas tanto para quem sente, quanto para a vítima deste sentimento que muitos confundem com amor. Há três tipos de ciúmes: o normal, o neurótico e o paranoico.

10/08/2020 17:28:00


FOTO : - Silvio Luiz Ortiz/Arquivo pessoal

Um sorriso alegre, repleto de gestos carinhosos deixa qualquer um com o semblante angelical. Mas o que fazer quando em frações de segundos este mesmo sorriso, estes gestos carinhos se transformam como em um passe de mágica, tornando a pessoa em um verdadeiro monstro, impregnado da mais intensa fúria que se possa imaginar?

Ao logo do tempo, as pessoas, em seus núcleos de convivência, vão aprendendo a lidar com diversas sensações e sentimentos. Isto faz parte do desenvolvimento da humanidade, com suas carências, necessidades e vontades que vão se assomando na medida em que o tempo passa.

Nesta reportagem, vamos abordar o assunto “ciúme”, um sentimento que, em muitos lugares e para muitas pessoas, é facilmente confundido com amor. Há quem acredite e diga que: “Quem não sente ciúmes é porque não ama”.

Mas a verdade é que este sentimento, segundo especialistas, não tem relação direta com o amor e, por isso, é tratado como patologia em certos casos.

Em entrevista, Silvio Luiz Ortiz, falou sobre o tema. Psicólogo há 18 anos, Silvio atua em Guarapuava no Paraná e atende a uma vasta região do Estado. Seu foco é a Terapia Cognitiva e Comportamental. Ele também possui especialização em Neuropsicologia e Violência Doméstica contra crianças e adolescentes.

Durante a entrevista, Silvio destacou que o ciúme não era um sentimento conhecido nas sociedades primitivas, uma vez que as pessoas primavam pela coletividade, como uma questão de sobrevivência. Em meio ao Povo Hebreu, na antiguidade, cerca de 2000 a.C. segundo Silvio, há relatos de algo que, se comparado na atualidade, poderia ser entendido como uma espécie de ciúme, mas que se diz mais sobre o rancor, a raiva e a própria inveja, algo muito mais pejorativo do que se entende hoje, por ciúme. “O ciúme, por si só, ele já é uma situação controversa. Tanto é, que muitas pessoas acabam compreendendo o ciúme como uma expressão de amor. No entanto, ele não é uma expressão de amor, ao contrário, tem características bem distintas. Por exemplo: o amor é voltado ao outro. Quando você ama, você tende a se doar, a abdicar de certas coisas. Tende a oferecer algo para quem você ama. No amor, o foco é o bem-estar do outro. Já o ciúme, é voltado ao bem-estar próprio, ou seja, só interessa o que é bom para mim (ciumento). Quem sente ciúmes, não se interessa pelo que o outro sente, pelo que o outro pensa”, sublinhou Silvio.

Estudos apontam que o ciúme surge muito cedo no ser humano. Este sentimento é despertando, principalmente na infância, quando a criança começa a entender o individualismo e a perceber que certas situações lhe acarretam perdas. Essas perdas, conforme os estudos, podem ser entendidas como ter que dividir brinquedos ou a própria alimentação, por exemplo. Neste contexto, há também a falta ou o desvio da atenção dos pais ou dos responsáveis para com esta criança que, em seu psicológico, entende que se fizer uma cena de ciúmes, pode reverter a situação. De acordo com Silvio, esses sinais, nem sempre são notados pelos pais, por estarem muito envolvidos com a criança. No entanto, segundo explica, os profissionais da área comportamental conseguem detectar a situação com certa naturalidade e rapidez. “Em muitos momentos, se percebem sinais de ciúmes em bebês, a partir do momento em que ele começa a sentir e perceber o individualismo. Nossa sociedade é individualista. Mesmo que não seja no sentido pejorativo, as marcas do ciúme se tornam muito bem acentuadas nas crianças que sentem e têm, primeiro a mãe e depois o pai, como referenciais absolutos. Por isso, todo mundo tem ou teve algum nível de ciúme ou passou por alguma situação neste sentido. Isso é muito comum na população. As manifestações se diferem de indivíduo para indivíduo, mas é comum, se manifestarem na fase precoce da criança”, afirmou o psicólogo.

A psicologia trabalha com três tipos de ciúmes: o ciúme normal, o ciúme neurótico e o ciúme paranoico. O ciúme normal, conforme estudos psicológicos, é quando há uma razão clara, concreta e objetiva para que a pessoa sinta ciúme, como a mentira e a má fé, por exemplo.   

O ciúme neurótico, de acordo com os especialistas, tem a ver com aquelas pessoas que passam a se sentir regularmente tensa. Em muitos momentos, não há grandes manifestações desse ciúme, mas a insegurança está sempre presente, agindo como tormento na vida dessa pessoa, fazendo com que ela veja e sinta problemas e medos onde estas situações não existam.

Em relação ao ciúme paranoico, os mesmos estudos apontam que este se diz daquela pessoa que teve sua própria percepção afetada. Em casos assim, os estudiosos sublinham que as situações são totalmente “fabricadas” pelo cérebro da pessoa que remete tudo em sua vida ao sentimento de perda, ao medo do abandono, ao terror de ser trocada por outra. “Tanto o ciúme neurótico quanto o ciúme paranoico, são entendidos como patologia, pois causam sofrimento ao indivíduo e a outras pessoas e isso, remete à necessidade de um tratamento e acompanhamento profissional”, explica Silvio.

PAPEL DA PSICOLOGIA

Quando o ciúme atinge um estágio patológico, a psicologia deve atuar como agente de investigação. O papel do psicólogo ou terapeuta, neste caso, é para que se entenda a causa do problema, uma vez que o paciente já desenvolveu diversas crenças sobre si e sobre seu valor como pessoa. Esta situação atinge diretamente o relacionamento no qual está inserido, afetando assim, diretamente a vida e o comportamento do outro. Nesta situação, conforme os profissionais, a psicologia tem o papel de desvendar quais são as “sementes” que fizeram nascer a situação. A partir desta descoberta e entendimento, passa-se ao tratamento propriamente dito, que são as sessões de terapia. “Nosso trabalho, enquanto profissional da psicologia, é transformar esta crença ‘disfuncional’ em uma crença fundamentada e funcional, adequada à realidade”, pontuou o psicólogo.

QUARENTENA

Nos últimos meses, a sociedade mundial precisou passar por uma verdadeira prova de fogo em se tratando de convivência e relacionamento interpessoal. Tudo isso ocorreu devido à pandemia do Coronavírus, uma doença ainda sem cura ou vacina preventiva.

No Brasil, País que amarga uma das maiores taxas de contaminação e de mortalidade do mundo por causa da doença, muitas famílias precisaram se reinventar em se tratando de relacionamentos e convivência. Trabalhar em casa ou acompanhar as aulas dos filhos pela internet, fez com que o antigo “normal” se desfizesse e cada um passasse a entender e a viver uma nova realidade.

Dentre tantas barreiras e abismos que precisaram ser vencidos neste período de isolamento, o ciúme figura como peça-chave, capaz de destoar os rumos trilhados até então.

Em meio a este cenário, as redes sociais, tais como WhatsApp, Facebook, Instagram, dentre outras, têm o potencial de interferir diretamente no comportamento das pessoas, que buscam nessas ferramentas, a grande oportunidade de interação e, talvez, a principal fonte de recebimento de informações.

COMPLEXO DE ÉDIPO (INVERTIDO?)

O funcionário público aposentado Orlando Siqueira Santos, tem 56 anos, é casado há 33 anos e pai de três filhas: a mais velha com 32, a segunda, com 30 e a caçula, com 23 anos.

Em entrevista, Orlando contou que por ser pai de filhas mulheres, percebe que há ciúmes para com ele, vindo delas. No entanto, em se tratando da filha mais velha, ele pontua que houve e ainda há muitos problemas relacionados a este sentimento que julga demasiado, doentio. Segundo Orlando, não há explicação para a intensidade do ciúme sentido pela filha em relação a ele, uma vez que o tratamento dispensado para com todas, é igual.

“Minha filha mais velha, sempre foi uma criança de personalidade muito forte. Ela nunca gostou de perder, nem em brincadeiras. Ela sempre coordenou, mandou nas brincadeiras. Ela, talvez por ser a primogênita, sempre foi muito apegada a mim. Entre ela e a nossa segunda filha, a diferença é de dois anos, um tempo relativamente curto se for analisar. Talvez por isso, o ciúme tenha começado muito cedo, por sentir que ia perder o colo. Acredito que tenha sido um mecanismo de defesa esta aproximação intensa para comigo”, conta Orlando.

A Psicanálise encara como natural o Complexo de Édipo, nome que se dá a uma fase do desenvolvimento psicossexual de garotos. Nesse momento, os meninos começam a sentir uma forte atração pela mãe, ao mesmo tempo que constroem um cenário de rivalidade com a figura paterna. O conceito foi desenvolvido pelo pai da psicanálise, Sigmund Freud.

Em relação às meninas, um estudo realizado também por Freud, em 1931, “faz observações a respeito da longa duração pré-edipiana da menina com a mãe e da existência de uma fase de rivalidade com o pai. Ele aponta que para o menino, a mãe, que fora seu primeiro objeto amoroso, continua o sendo e com a intensificação de seus desejos eróticos por ela, o pai se torna um rival”. O texto faz parte de um estudo chamado “Complexo de Édipo Feminino), realizado por Luiza Rubim e Carolina Apolinário de Souza, e publicado no portal do Instituto Sephora de Ensino e Pesquisa Lacaniana (ISEPOL).

No caso de Orlando, a situação do ciúme da filha mais velha, destoa completamente dos estudos de Freud e passa a ser encarado como um Complexo de Édipo Invertido e com longa duração; neste caso, por um período de 32 anos. Conforme explicou, houve períodos em que uma simples aproximação física do casal, resultava em um verdadeiro terror na família, por causa das crises de ciúmes da filha mais velha.

“Hoje, eu diria que a situação melhorou um pouco, mas o ciúme continua. Entre ela e a mãe, sempre houve uma rivalidade incomum, discussões acirradas, um embate muito forte mesmo. Houve casos em que minha filha enfrentou a própria mãe por minha causa. As duas têm as personalidades muito parecidas e isso deve explicar um pouco do problema. Mesmo que hoje, ela (filha) esteja casada, seja mãe de família, uma profissional dedicada, toque sua vida como tem que ser, a relação dela para comigo continua muito intensa e o ciúme, da parte dela, é visível. Eu sempre deixei bem claro que ela será para sempre minha filha e seu lugar em minha vida sempre estará garantido, assim como o das irmãs. Disse também que minha relação com a mãe delas é para sempre, pois se trata de um casamento e que começamos esta vida (de casados) apenas nós dois e vamos acabar assim, sendo nós dois. Eu digo que é uma situação muito difícil, pois foge de qualquer entendimento”, finaliza Orlando.

REFERÊNCIAS: Complexo de Édipo Feminino - por Luiza Rubim e Carolina Apolinário de Souza - publicado no portal do Instituto Sephora de Ensino e Pesquisa Lacaniana (ISEPOL).